Com o final de outubro, obviamente, lembramos da tradicional festa de Halloween, com suas fantasias, brincadeiras e comidas bizarras e todo aquele clima de filme de terror. Este não é um período apenas para os festejos horripilantes ou para o pesar pelos mortos – é também uma época interessante para práticas mágicas, para o recolhimento interior, para o lidar com tristezas pessoais, para o conectar-se com o mundo inferior. E, por que não, para dançar? 🙂

A dança – e em especial, a Dança Tribal – nos permite vivenciar e experimentar uma miríade imensa de estilos e propósitos. Dentre eles, estão os mais teatralizados, místicos e ritualizados. No caso de datas como Halloween, podemos expressar e entrar em contato com esses tipos de conexões relativas ao nosso lado ctônico e sentimentos densos. Podemos trazer à tona através da arte nossos monstros inconscientes e ritualizar desejos.

Vamos aproveitar este momento para falar um pouquinho do simbolismo e história por trás dessa data – assim como de outras comemorações semelhantes de outras regiões?

(matéria originalmente publicada no portal Tribal Archive)

A cultura de um povo é sempre algo miscigenado e híbrido: representa os costumes e pensamento de um povo, agrega tradições de outros povos com os quais teve contato, evolui com o tempo, e é também um reflexo do inconsciente coletivo. Assim, quando vemos uma determinada prática ou mito em mais de uma cultura, essa semelhança reflete ou a adoção da característica de um povo pelo outro, ou um arquétipo que emergiu espontaneamente em ambos, mesmo que nunca tenham tido contato.

Mas, independentemente do caso, trago aqui quatro exemplos culturais distintos que abrangem os dias 31 de outubro e 1 e 2 de novembro: Halloween, Samhain, Dia de los Muertos e Finados!

E, claro, sem deixar de linkar isso com o nosso mundo da dança! 😉

Começando pelo clássico: Halloween!

Na realidade, o Halloween é o primeiro de uma tríade de dias especiais na cultura ocidental cristã, chamada, em inglês, de “Allhallowtide”, cujo objetivo é orar pela alma dos mortos, inclusive a de santos e mártires. Os três dias são: “All Saints’ Eve” (o Halloween propriamente dito), ou “Noite de todos os Santos”, que inicia na noite de 31 de outubro; “All Saints’ Day”, “Dia de todos os santos”, em 1º de novembro; e enfim “All Souls’ Day”, ou “Dia de todas as almas”, em 2 de novembro. E, apesar de ser maciçamente festejado nos EUA, sua origem é inglesa.

Dependendo da relação, religiosa ou não, que você tiver com essa cultura, o modo de “comemoração” perante os mortos pode ser tanto mais tranquilo – voltado para rezas, respeito e luto – quanto festivo, com brincadeiras e outras tradições típicas, como no caso do Dia de los Muertos mexicano. Desnecessário dizer, a estética é fortemente calcada em monstros e figuras apavorantes, que podem provir de mitos antigos, da literatura ou cultura pop.

Aqui um exemplo de performance com a temática de vampiros!

BÃT, como você já deve ter ouvido falar, há um certo consenso de que o Halloween é originário da cultura celta – especificamente a gaélica – apesar de alguns acadêmicos erguerem a possibilidade de ambas tradições terem surgido independentemente uma da outra.

E aqui vamos para o lado pagão da Força: Samhain!

O evento gaélico “Samhain” ocorre da noite de 31 de outubro até a noite de 1º de novembro, e é o festival que marca o início do inverno (considerando, claro, o hemisfério norte), apesar da data estar entre o equinócio de outono (em setembro) e solstício de inverno (em dezembro). A mesma comemoração ocorre com outros nomes em diferentes terras e povos celtas.

Sendo o início da época de vacas magras, os rituais envolviam oferendas e práticas de purificação para se evitar qualquer mal, e também para agradecer as colheitas anteriores. O povo celta acreditava que esse período abria uma “brecha” entre o mundo dos vivos e o mundo das divindades, criaturas fantásticas e dos mortos (como, por exemplo, os Aos sí), sendo uma época propícia para que tais entidades caminhassem entre as pessoas.

E é desta crença que surgem várias das práticas mais conhecidas do típico Halloween – como as brincadeiras de travessuras, as fantasias e até as abóboras. Todas elas possuem uma relação ou propósito para se lidar com os possíveis “encontros”. Por exemplo, as fantasias implicam na pessoa incorporar a entidade representada a fim de não ser prejudicada por ela, ou de se disfarçar e não ser notada. Os doces bizarros e exóticos são oferendas para abrandar os espíritos, e a abóbora esculpida com uma face é de um personagem mítico específico (Jack’o’lantern), cuja função é de afugentar os espíritos maléficos, por ser uma alma errante, não aceita nem no céu e nem no inferno.

Continuando as correlações, temos agora o Dia de los Muertos e o Dia de Finados!

O “Dia de Los Muertos”, que ocorre em 2 de novembro, é, como o próprio nome diz, um dia dedicado a todos os entes falecidos. Na mesma data e com o mesmo intuito, temos aqui em nossas terras tupiniquins o “Dia de Finados”.

Apesar da data, existem algumas diferenças entre eles: o Dia de los Muertos, comemorado no México, é razoavelmente antigo, e possivelmente com raízes no povo Azteca, e o brasileiro Dia de Finados é relativo à cultura cristã. Curiosamente, o festival mexicano ocorria em outra época – no início do verão – mas foi gradualmente modificado justamente pra coincidir com o Halloween (já que se tornou mainstream graças à cultura ocidental e o cristianismo).

Além disso, vemos claramente uma diferença na atitude: onde nós, brasileiros, costumamos tirar o dia para sentimentos de luto e pesar pelos entes queridos perdidos, os mexicanos trazem uma energia muito mais festiva, com muita dança, festa, comida e apetrechos temáticos. Caveiras, esqueletos, artigos de bruxaria para todo lado. E as clássicas catrinas!

“Mas, mas… aqui não é o começo do inverno! Comofas////”

Pois então. Este é um problema que nós, do hemisfério sul, vivemos, afinal, nossa cultura globalizada é fortemente ditada pelo hemisfério norte. Assim, muitas vezes acabamos deixando de lado nossas próprias tradições e mitos em prol da dos gringos.

(Não que isso seja necessariamente ruim – eu, por exemplo, sou fascinada pelas culturas nórdicas e escandinavas, asiáticas e indígenas norte-americanas, e posso querer conduzir rituais e experimentações relativos à cultura deles por questão de afinidade)

O “problema” é: seguir as datas e rituais do pessoal lá de cima implica numa inversão cultural. Algumas coisas podem não ter efeito ou não combinar energeticamente, pois estão com os sinais trocados. Por exemplo: as comemorações que citei acima são voltadas ao contato com os mortos, com o mundo inferior e preparação para a época do inverno… que no nosso caso acabou de passar.

Quando o assunto é ritual, o contexto é uma das peças mais importantes. De nada adianta eu desejar energia suficiente para minha sobrevivência durante o inverno se eu fizer esse pedido no final da estação. :p

Assim, o correto seríamos adaptar as datas – no caso de querermos comemorar ritos de outras culturas lá de cima. De fato, já topei com alguns eventos que serão realizados por agora, mas que festejam o contexto de primavera.

Enfim. Como um bônus, deixarei aqui algumas informações sobre o festival celta de verão – o oposto do Samhain: Beltane!

Este festival ocorre em 1º de maio lá em cima, e o objetivo é obter proteção para o gado e abundância nas plantações – assim como fazer oferendas aos Aos sí, mesmo grupo de criaturas mencionadas neste texto. Um dos pontos fortes são as fogueiras, feitas para acender o fogo sagrado – que auxilia na proteção, limpeza e renovação.

Além disso, Beltane conecta-se com outro festejo – desta vez germânico, do dia 30 de abril: Walpurgis Night! Com o simbolismo semelhante ao festival celta, ele ilustra a união entre o Sagrado Feminino e o Sagrado Masculino, o que também relaciona-se com a época de fertilidade e abundância que geralmente é a primavera/verão.

Finalizo aqui com o videoclipe da banda Faun, “Walpurgisnact”, que representa esta união. 😉

That’s all, folks! Aproveitem bem essa época – seja qual for a sua opção cultural! Se quiserem mais detalhes sobre o surgimento e significado, dêem uma espiada nos links a seguir. 😉

https://en.wikipedia.org/wiki/Samhain
https://en.wikipedia.org/wiki/Halloween
https://en.wikipedia.org/wiki/Day_of_the_Dead
http://www.history.com/topics/halloween
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151029_origem_halloween_rb
http://paganwiccan.about.com/od/samhainoctober31/p/Samhain_History.htm
http://www.newgrange.com/samhain.htm
http://nationalgeographic.org/media/dia-de-los-muertos/
https://en.wikipedia.org/wiki/Beltane
http://www.witchvox.com/va/dt_va.html?a=usma&c=holidays&id=2765
https://en.wikipedia.org/wiki/Walpurgis_Night

Imagem da capa: “Darkness Fall II”, por DilekGenc

Sobre o autor Anath Nagendra

"Uma criatura estranha, mergulhando dentro de si mesma e tentando voltar para oferecer algo ao mundo."

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s