De Onde Vim

Alerta de textão!

Acho interessante compartilhar sobre minha história – e ler a de outras – porque contexto é tudo, e isso pode inspirar alguém. Muitas vezes admiramos um artista ou profissão, ou queremos perseguir uma determinada carreira, mas nos vemos impedidas, auto-sabotadas, frustradas ou desanimadas porque acreditamos não estar no caminho certo, não termos as características perfeitas, não nos esforçarmos da maneira ideal, ou não ter começado no momento correto.

No caso da dança, é muito comum que grandes bailarinas tenham começado muito cedo na vida, passado por diversos estilos, aprofundado seus estudos e estabelecido uma carreira ainda bem jovens. Vemos com freqüência como as artistas mais famosas e admiradas são pessoas muito ativas, que treinam 40 horas por dia (#Ling Ling feelings), e criam literalmente o tempo todo.

Mas… e quando não nos encaixamos nesses perfis? Quando não temos a chance de começar cedo, não temos energia para tanto treino, tempo para aprender mais ou dinheiro para investir?

Não temos o direito de ter uma carreira como bailarina?

É claro que temos. Temos o direito de sermos o que quisermos. Além disso, há também profissionais de sucesso que admiramos, mas SUPOMOS que são pessoas muito diferentes de nós – e então descobrimos que não, que também são humanos, que também tem falhas, dificuldades, que construíram seu caminho com esforço, que não começaram pela maneira considerada ideal.

Por isso aqui escrevo sobre mim. Quero mostrar um pouquinho da minha trajetória e, quem sabe, inspirar alguém que ache que não pode fazer isso ou aquilo pelo motivo X ou Y. Ainda luto contra a influência negativa da sociedade, que me faz sentir como um fracasso e uma imbecil por tentar – pois sou do tipo sedentária, procrastinadora, indisciplinada, acima do peso e comecei a carreira “tarde”. Como posso OUSAR tentar ganhar a vida numa área artística que depende do corpo e da imagem?

Pois eu ouso.

Pois eu quero, eu gosto, me aprofundo e me liberto com isso.

Nossa cultura tem a tendência de direcionar você para o que você faz naturalmente bem – por exemplo, uma pessoa com uma mente mais racional e prática e de estilo de vida mais parado (tipo eu hehe) se daria melhor numa área que valoriza essas características. Isso, per se, não é ruim, mas não deveria ser uma imposição. Já dizia Jung, a Sombra não é para ser calada.

Então, vamos lá, contar um pouco do meu caminho até aqui – 2019.

Entrei no mundo da dança cedo: comecei com aulas de ballet clássico pelos 5 anos. Fiz, se bem me lembro, uns sete anos, geralmente com duas aulas por semana, cheguei a dançar com sapatilha de ponta e tudo. Quase me formei. Cheguei a apresentar um solo, aos 9 anos, num festival de Porto Alegre e levar o 3º lugar.

Só que aquele não era o meu caminho e, avoada que sou, não tinha consciência disso, na época. Eu não tinha grande fascínio pelo ballet, não me lembro de estudar muito a fundo nem nada. Não treinava fora dos horários, nunca sequer consegui fazer um spacatte, e lembro de que sempre me senti meio “pesada”. Toda aquela leveza que a professora e colegas tinham, eu não tinha. Lembro que fazia um esforço hercúleo pra me erguer numa ponta e fazer uma pirueta simples. E eu não era gordinha – apesar de que, imagino, muitos diriam que eu era meio “larga” para os padrões magrelos do estilo.

No último espetáculo que participei – Giselle – eu dançava em par com outra bailarina, e DURANTE a apresentação, quando eu fazia um echappè, a patela do meu joelho esquerdo saiu do lugar. Ela voltou pra posição na mesma hora, mas o susto e a dor me tiraram completamente da dança, e saí mancando do palco (mas dancei no outro dia novamente, com o joelho enfaixado e de meia-ponta!).

Depois desse episódio, parei com as aulas – minha patela saiu do lugar mais três vezes nos anos seguintes, com o diagnóstico de condromalácia patelar – e segui com meu estilo de vida sedentário. Perdi a postura mais ereta que eu tinha, comecei a engordar e enfrentar alguns efeitos-sanfona por questões de saúde (um deles era que eu ficava anêmica sempre que menstruava, então me entupiam de corticóides e eu comia feito um pedreiro), iniciei musculação e desisti umas três ou quatro vezes, fiz um tempinho de natação… e só.

As minhas tentativas de freqüentar uma academia de musculação eram sempre motivadas por uma obrigação. Eu tinha que me exercitar, eu tinha que me mexer, eu tinha que cuidar da minha saúde. Mas sempre achei essa atividade um saco, tinha muita preguiça de sair de casa pra isso, achava monótonas as repetições de movimentos, detestava a interação social do ambiente. Sempre tive essa tendência à eremitice. #INTJs entenderão

Houve uma pequena mudança na última vez que tentei: pela primeira vez eu pude sentir um certo prazer no movimento. Pude perceber a sensação de satisfação corporal depois da prática. Mas não foi o suficiente pra me manter lá. Na época – por volta de 2011 – eu estava vivenciando a “magreza” pela primeira vez na vida (em termos subjetivos, afinal, eu fui magra por muito tempo, mas não sabia), por conta de uma infecção urinária assintomática que me tirou o apetite, e provavelmente uma certa depressão. Pela primeira vez, eu me via magra no espelho.

Foi aí que eu descobri que não tava curtindo muito aquela magreza. Era muito legal não sentir preocupação em tapar a barriga, mas eu estava apática, flácida, sem peito e sem bunda. Meh. Voltei a engordar quando encontrei minha alma gêmea (óin <3), e decidi que queria cuidar de mim, mas com alguma atividade que eu gostasse, porque musculação definitivamente não era o caminho.

Fiquei entre Dança do Ventre, pra buscar a minha feminilidade, e alguma arte marcial, pra botar minha energia estagnada e raiva pra fora. Não me recordo porquê considerei Dança do Ventre, mas acabei optando por ela ao encontrar um curso intensivo do nível iniciante.

Contexto: ao longo da vida acabei sufocando muito da minha feminilidade – ou minha perua interior, como chamo carinhosamente – por repressões da çociedádhy. Sempre fiz o tipo intelectual, estava na universidade, e detestava o estereótipo da vaidade fútil. Por conta disso, deixava de me arrumar, de me maquiar, de ser a perua gótchyka que sempre quis ser. Fazer Dança do Ventre me pareceu um bom começo pra tentar reaver isso.

Assim, no verão de 2012, fiz três semanas de aulas de nível iniciante, na escola Templo do Oriente, de Brysa Mahaila, em Porto Alegre, onde descobri que tinha bastante facilidade para aprender as técnicas, e logo de cara já pude perceber minhas pequenas banhas na barriga como algo interessante e bonito. A partir daí foi só amor!

Os dois primeiros anos foram como aluna regular – fiz aulas de básico e intermediário em 2012, e avançado em 2013, além de fazer vários aulões temáticos diversos. Em algum momento desse período eu topei com o Tribal Fusion no Youtube, e descobri que era aquilo que eu queria fazer. BÃT, decidi primeiro me aprofundar bem na Dança do Ventre antes de mergulhar nesse estilo que, hoje, sei ser a expressão da minha alma, em prol de experimentar as facetas mais tipicamente peruísticas do Feminino.

No meu primeiro espetáculo – Mulheres e Mitos, de 2012 – participei de duas coreografias, já que estava na turma de básico e na de intermediário. Já de cara dancei usando snujs numa delas, e espada noutra. Eu estava tão animada com aquilo tudo que tinha energia e coragem pra me jogar em tudo. Tanto que arrisquei meu primeiro solo – de Dança do Ventre, mas, sem eu saber, já tinha uns pitacos da tribalesca querendo sair – no final do meu primeiro ano de dança, usando um véu simples. No ano seguinte, com a turma de avançado, participei apenas da coreografia em grupo na mostra de final de ano, no estilo clássico.

Relevem a técnica, né, meus amores.

Em 2014 eu resolvi me aprofundar na área, fazendo o curso de Formação Profissional em Dança do Ventre, de Brysa Mahaila. Eu estava no meio do mestrado, passando por algumas montanhas-russas internas (que, na verdade, foram ficando cada vez mais complexas e continuam até hoje), além de uma fase depressiva (que eu só percebi muito tempo depois). Não pude fazer aulas regulares, então uni meu fascínio pela dança com minha personalidade que gosta de estudar tudo de maneira estruturada e intensiva – só pelo meio do ano que a decisão de querer a dança e a arte como ganha-pão se consolidou.

Na época, o curso era um final de semana inteiro por mês – de janeiro a dezembro – e passava por absolutamente todas as nuances que envolviam a Dança do Ventre: técnica de passos, história, Golden Age, ritmos e musicalidade, leitura corporal, expressividade, estilos e influências, fusões e Tribal, foclores diversos, acessórios, noções de anatomia e cuidados físicos, coreografia e improviso, didática, orientação profissional… ufa!

Não saí do curso sendo uma especialista, mas sim com uma grande percepção da totalidade desse mundo e uma boa noção sobre como me aprofundar e buscar qualidade. Hoje, por conta do amor ao Tribal Fusion, sinto que já esqueci muito do meu conhecimento de Dança do Ventre, me sinto bastante insegura com relação a folclores e um tanto enferrujada. Mas vejo que ainda amo essa área – afinal, ela continua sendo a essência-base das fusões étnicas-contemporâneas derivadas.

Foi um ano marcante, pois ali começaram a nascer as sementes do que hoje vejo ser o meu forte – ainda que eu não tivesse percebido isso na época. No estágio didático, dei aula para uma amiga e, vendo sua grande dificuldade em aprender os passos básicos, levei um choque ao perceber como o meio de ensino dessa dança não facilita muito para pessoas como ela. Ali eu descobri que gostava muito de ensinar – e como sou extremamente detalhista! Hehehehe.

Na prova prática do final do curso, optei por dançar Enta Omri, uma das mais famosas e intensas músicas clássicas árabes! Obviamente que minha técnica ainda precisava de melhorias, mas já era meu caminho me apontando como o meu trunfo é a expressividade emocional.

Esta foi uma apresentação do ano seguinte, 2015, que está um pouquinho melhor. Mas ainda muito a melhorar. :p

Na mostra de final de ano, dancei uma coreografia em grupo com as colegas do curso – que também era parte da avaliação, pois tivemos de construí-la praticamente sozinhas, onde optamos pelo folclore ghawazee – e também um solo, pois fui escolhida como aluna destaque – por conta da minha evolução ao longo do ano, afinal, havia colegas bem melhores e experientes que eu. Fiquei honrada, mas meu solo ficou bastante “agitado”, por conta do meu nervosismo. Hehehehe.

Mãozinhas nervozamente balançantes <o>

2015 foi um ano intenso. No Ventre, segui com um curso de aprofundamento no estilo egípcio e das bailarinas da Golden Age, também de Brysa Mahaila, onde recebi o Selo de Qualidade Templo do Oriente. Infelizmente não tenho registro do meu solo de avaliação, mas me recordo que comentaram que minha expressividade lembrava a Tahya Carioca. ❤

Também foi quando comecei o meu mergulho do Estilo tribal, com o curso de Formação em Tribal Fusion de Joline Andrade, em São Paulo. Ao contrário da Dança do Ventre, no Tribal eu me tornei basicamente uma autodidata, tendo esse curso sido um norte para mim. A Joline é uma das minhas grandes inspirações, pois, além de ser uma bailarina espetacular, é uma pessoa maravilhosamente fofa e atenciosa, e com uma visão extremamente livre da arte e da dança. Isso calcou boa parte da minha atual relação com o Tribal, que continua em um eterno estudo e aprofundamento.

O curso também foi um apanhado geral para direcionamento, passando pela história do Tribal, sequências técnicas desafiadoras, musicalidade e diferentes estilos derivados. Como prova final, fizemos em grupo uma coreografia de fusão indiana e, por conta da falta de tempo, não me arrisquei em um solo. Mais tarde, em um evento regional, fiz a minha primeira tentativa – que, vendo hoje, percebo que meu entendimento sobre o que é o Tribal Fusion ainda estava beeeeeeeeem aquém.

Por fim, fiz um curso de Formação de Instrutores de Yoga Clássico (Raja Yoga), pela ABYOGA, em Porto Alegre. Meu ímpeto não era me profissionalizar, mas sim entrar num estudo mais aprofundado que envolvesse cuidar e explorar o corpo, unido às questões de espiritualidade que eu já me via mergulhada. Foi um curso intenso, mas delicioso, e na cerimônia de encerramento, fiz uma performance de Indian Fusion! ❤

Este curso me foi muito marcante, cheguei a dar algumas aulas depois de formada, mas – a princípio – esse caminho não é para mim. Hoje, o yoga faz parte das minhas práticas e cuidados pessoais, e levo bastante de sua influência para minhas aulas e cursos de dança.

Extra: fora dos palcos!

Além destas apresentações, considero mais três como importantes na minha formação, ainda que não sejam cursos: dançar em restaurantes!

Pra que não sabe, a Dança do Ventre surgiu num contexto bem mais intimista – em clubes e restaurantes, ou mesmo nas ruas, como nos casos das ciganas árabes – e só em poucas ocasiões se via o glamour de um palco. Hoje, os espetáculos diante de uma plateia organizada são muito mais frequentes, mas a essência da dança continua pairando por entre mesas.

Em 2014 e 2015 tive a oportunidade de dançar no antigo restaurante da minha professora, o Templo do Oriente Kebaberia! A Balada Árabe era direcionada à alunas, principalmente para podermos experimentar a diferença que é dançar num palco e dançar em meio as pessoas.

Enfim! Tudo indica que minha alma é tribalesca, e que se alimentará das essências do meu passado e dos estudos diversos que rodeiam minha vida. Mas isso, falarei em outra ocasião.

Vocês podem ver o que mais fiz em termos de cursos e participações de atividades aqui, tanto de Ventre quanto de Tribal. 😉

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Arte do topo por Carmen Guedez.

sosimby

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