Prisões de nós mesmos

Criei este site primeiramente como um blog, no dia 8 de março de 2016. Sim, foi de propósito, achei que seria interessante começar os trabalhos no dia da Mulher, basicamente porque parte do motivo pelo qual danço, é resgatar o meu feminino interior. Hoje, uso como marco meus 30 anos para relançá-lo depois de uma densa reforma, além de estar trabalhando na expansão de horizontes de trabalho criativo com a lojinha e os cursos on-line.

Update: devido à uma nova reforma no site, estou reupando todos os posts anteriores, às portas dos 31 anos hehe.

Na verdade, é mais algo como libertar o meu eu, a minha essência em sua totalidade, sendo ela feminina ou não. Mas existe uma ênfase no Feminino, pois, mesmo sendo uma mulher cisgênero que se identifica como tal, a minha feminilidade é o que mais está trancafiada aqui dentro.

Isso porque eu cresci num mundo que, por algum motivo, vê mulheres (e qualquer um que seja diferente da norma local) como algo inferior, perigoso, que ameaça o status quo e que precisa ser mantido sob controle. E faz isso impondo na nossa psique quatro coisas:

A opinião do outro é mais importante que a sua.

Assim, engolimos nossas frustrações e nossas indignações, nossas mágoas e nossas raivas, enquanto nos esforçamos avidamente para não decepcionar ninguém, para agradar a todos, para não virar motivo de chacota, fofoca ou ficar “mal-falada”. Fazemos de tudo para nos mantermos na normalidade, na moda, no que é bem visto e bem quisto.

E quando não aguentamos mais e decidimos expressar nossos sentimentos e buscar por justiça, somos tachadas de loucas, exageradas, de gênio forte. Quando conseguimos atingir um patamar de empoderamento e auto-estima, somos vistas como arrogantes e inflexíveis.

Você deve seguir a norma.

“Você deve ser assim, e não assado”. Ah, a ambigüidade da perfeição impossível, que basicamente é o que nos leva à loucura e fragmentação interna. Mulher tem que ser bonita, inteligente, independente, boa mãe, boa esposa, boa filha, boa dona-de-casa, jovem, usar maquiagem. Tem que ser recatada, pra casar, e boa de cama.

Mas não pode ser bonita demais, senão os machos ficam assediando, chama a atenção. Mas não pode ser desleixada demais, senão ninguém vai te querer. Mas não pode usar maquiagem demais, senão parece puta. Mas não pode ser inteligente demais, senão assusta os homens. Mas não pode ser independente demais, porque alguém tem que lavar a louça, fazer a janta e cuidar das crianças.

Você só vai ser feliz se seguir o padrão.

É um sistema de recompensas, mas que se revela ilusório. Se conseguir um bom marido, tiver filhos e fazê-los felizes, você terá tido sucesso na vida, não importa se você se sente infeliz e um lixo por dentro. Se for bonita, vai receber elogios e propostas. Se for rica, vai ser reconhecida como vencedora. Se os filhos se tornarem cidadãos-de-bem, será santificada.

Mas se você não tiver o corpo perfeito, com tudo em cima, não estar sempre maquiada, não se portar como uma dama da alta elite aristocrática, não for religiosa, não for virgem ou casada, tiver um estilo alternativo, resolver não ter filhos, não gostar de crianças, trabalhar a maior parte do tempo, for dona do próprio nariz, se for na balada sozinha e beber todas, se usar roupas sensuais e extravagantes, se for prostituta, mãe solteira ou lésbica…

… aí o que você recebe é desprezo, ameaças, violência, preconceito.

Se você não é feliz, a culpa é sua.

Esta deve ser a jogada mais genial do sistema pra manter nossas cabeças baixas. Acreditamos que tudo é resultado *somente* das nossas escolhas. Está gorda? Culpa sua, que não teve força de vontade suficiente pra mudar isso. Sua técnica é pobre? Culpa sua, que não treina o tempo todo. Está deprimida? Culpa sua, que não consegue ver como o mundo é lindo e sair disso. Foi criticada ou agredida? Culpa sua, certamente tinha motivo pra isso e mereceu.

A vida (externa e interna) é muito complexa, e depende de muitas variáveis, muitas vezes subjetivas e exclusivas de cada experiência de vida. Mas é mais “fácil” lidar com as coisas (e controlar as massas) se nos fizerem acreditar que a vida é simples. É mais fácil criar um foco unilateral de culpa, do que tentar entender os muitos lados da moeda.

É mais fácil jogar o problema pra baixo do tapete, do que realmente tentar resolvê-lo.

Nós esquecemos que o que é realmente impossível é agradar todo mundo. Nós esquecemos que temos que agradar a nós mesmas, e não aos outros. Nós esquecemos que a nossa felicidade está dentro da gente, e não é algo a ser atingido por ações, mas sim um estado de espírito.

Perceba como, por mais que a dança permita que possamos resgatar esse feminino esquartejado para podermos nos sentir completas novamente, ainda estamos rodeadas por uma sociedade que faz de tudo para impedir isso.

Temos vergonha de dançar por estarmos gordinhas. Temos vergonha de dançar por não termos um quadril mega solto e técnicas precisas. Nos preocupamos com o que os outros vão pensar da nossa dança e aparência. Nos preocupamos em não parecer vulgar. Temos colegas que competem entre si para ver quem é a melhor. Temos colegas que diminuem alunas para se sentirem num pedestal.

Ficamos frustradas por olhar aquela artista maravilhosa e jovem, e ver que estamos ficando “velhas” e com muita coisa ainda por ser estudada e trabalhada. Ficamos deprimidas por pensar que não vamos conseguir atingir um determinado objetivo, porque ele demanda uma quantidade de tempo e esforço, os quais não sabemos se iremos ter. Temos medo de criar e experimentar, por medo de sermos julgadas por “quebrar regras”.

Nós temos que lembrar que não somos obrigadas a agradar a todos, porque isso é impossível. Mesmo em um mundo utópico onde não existe preconceito e todos são livres, ainda assim as pessoas terão gostos distintos e diversos.

Nós temos que lembrar que não somos obrigadas a nos encaixarmos em determinados padrões, porque a opinião alheia muda com o tempo. O que é bonito hoje pode ser o feio amanhã.

Nós temos que lembrar que não somos obrigadas a sufocar características mal-vistas pela sociedade, porque todo mundo as possui e podemos ser todas elas, em equilíbrio. Dar vazão à nossa psique nos leva a uma existência mais completa e pacífica, enquanto que a repressão só gera mais violência e infelicidade.

Nós temos que lembrar que quando o assunto é arte, não há regras. Há o artista, e o que ele pretende com a obra. Se o produto pisar em calos ou tabus da sociedade, cabe ao artista decidir se quer lidar com as conseqüências disso, e à comunidade questionar as perspectivas e censuras implícitas.

O mundo nos impõe grades, mas somos nós que as soldamos em nosso rosto. Cabe a nós quebrarmos essa tela que nos impede de ver a beleza em nós mesmas e ao nosso redor. É uma tarefa árdua, difícil e dolorosa, e que dificilmente se resolverá do dia para a noite. E está tudo bem se você optar por esperar, por ficar na concha da normalidade. Está tudo bem se você preferir avançar devagarzinho, expondo-se aos poucos.

Só você sabe o que acontece dentro de si, e qual o esforço necessário para sair e enfrentar esse mundo selvagem. Busque a libertação, mas respeite seus limites.

Não deixe que os outros imponham a forma como você deve se livrar da imposição.

Lembrando que esse “cabe a nós” não significa, necessariamente, só você. O âmago das questões é, sim, algo que somente nós podemos tentar alcançar, pois está dentro da nossa estrutura interna mental/emocional. Mas isso não quer dizer que não precisamos de ajuda. Pelo contrário, uma mão puxa a outra. Uma mão não larga a outra. Buscar ou oferecer ajuda é algo que precisamos desesperadamente hoje em dia, e isso nos faz alimentar nossa empatia e a curar nossas próprias feridas.

Mas, como tudo na vida, saiba equilibrar o teu próprio processo de cura com a ajuda que eventualmente irá pedir ou receber. Muita gente quer ajudar, genuinamente, mas a falta de conhecimento ou tato pode vir a piorar as coisas.

Passei minha vida inteira preocupada com meu peso, com minha barriga e aparência, mesmo quando eu era “magra”. Hoje estou de fato gordinha, adoraria perder uns bons quilos, mas perceber em fotos antigas como eu me via, na época, da mesma forma que me vejo hoje, só demonstra como a questão é muito mais a minha percepção de mim mesma, quanto do excesso de peso em si.

Sempre achei mulheres mais curvilíneas e cheinhas mais bonitas, ainda mais depois de começar a praticar Dança do Ventre. Já fui diversas vezes elogiada como tendo uma beleza renascentista, inclusive sendo comparada à Vênus de Botticelli. Minha percepção de mim mesma está muito melhor do que era há alguns anos. Mas, ainda assim, eu me sinto “feia”, com meu pneu na barriga. Ainda assim, eu me sinto desestimulada a dançar porque um figurino destaca essa minha característica. Como posso querer trabalhar numa área que exige beleza, se não consigo sequer me cuidar?

Sempre fui uma pessoa racional e fui criada no meio acadêmico, visando trabalhar em universidade. Mas me vi infeliz ali, e, fascinada pela dança, abandonei a carreira para abraçar a arte. Ainda assim, me sinto “burra”, tendo 25636485658763 de coisas para estudar e me aprofundar. Como posso querer ser uma professora, se não sei quase nada? Como posso querer ministrar cursos, se não li textos básicos da área ainda? Como posso querer ensinar, sendo tão despreparada intelectualmente?

Sempre gostei de maquiagem e vaidades femininas, mas quase nunca as “exerci”. Nunca gostei de pessoas me encarando, ou a sensação de estarem comentando. Por conta disso, nunca deixei meu lado gótico/vaidoso se expressar muito, diversas vezes deixei de me arrumar ou maquiar um pouco para ir à universidade, por receio de fofocas. Como pode alguém que nunca se arruma, aparecer toda produzida? Está querendo alguma coisa! Muita maquiagem é coisa de perua fútil e não de universitária.

Sempre fui sedentária. O tipo de pessoa que prefere ficar em casa lendo ou jogando no PC, e que não conseguia freqüentar poucos meses de musculação. Depois da dança, me tornei alguém um pouco mais ativa, mas ainda assim, não pratico metade do que deveria. Sempre tive problemas com disciplina, e definitivamente não sou uma pessoa hiperativa. Estou muito melhor do que antes, sinto meu corpo pedir por movimento e a sensação agradável de fazê-lo. Mas continuo tendo de fazer um esforço hercúleo para levantar a bunda e me exercitar. Como posso querer ser uma boa bailarina, se sequer consigo treinar um pouco todo dia? Como posso querer ser uma boa professora, se muito da minha técnica está aquém do que deveria? Como posso querer emagrecer e criar as maravilhosas performances que dançam em minha mente, se não consigo ter ânimo nem para fazer o que amo?

Como posso querer ganhar a vida trabalhando com dança, se não consigo me desenvolver propriamente, se sou uma eremita que não é muito chegada em socializações e diplomacia, se mal tenho energia pra dar algumas poucas aulas na semana? Como posso querer criar uma carreira nessa área, se estou nos 30 anos com tanto para estudar e polir, e com problemas estruturais de saúde?

Perceba como os meus impedimentos são baseados em exigências externas. Eu devo ser isso, eu devo fazer aquilo, eu devo agir daquela forma. Algumas podem até ter certa razão – como treinar para melhorar – porém, a questão aqui não é o conteúdo, mas sim, a imposição. Ela é baseada numa generalização de ação que não funciona com todo mundo, eu inclusa.

Eu tenho que encontrar a minha própria forma e ritmo de alcançar meus objetivos, e uma das coisas que eu preciso me livrar é dessa obrigação interna. Principalmente porque é bem possível que eu consiga me disciplinar, me cuidar, treinar e tudo o mais exatamente como a bailarina de sucesso faz, quando essa “voz” interna puder ser calada ou transformada. É um mecanismo de auto-sabotagem, pois, por mais que a “voz” tenha razão, a forma como ela se impõe gera uma reação de rebeldia interna minha, mas que se volta contra mim mesma.

A chave é transformar o devo em quero. Mas conseguir isso significa lutar contra o mundo e dar voz ao indivíduo, o que muitas vezes não é fácil. Significa enfrentar um mundo inteiro que te encara, que te julga, que te manipula.

Não queremos ter dor de cabeça. Não queremos nos estressar, comprar briga. Não queremos ser prejudicadas, perder contatos, alunas. Não queremos nos expor aos julgamentos. Não queremos lidar com as conseqüências.

Mas acabamos tendo de lidar com as conseqüências de ficar calada. De não falar o que nos incomoda, o que preferimos, o que achamos. Isso apenas reforça a jaula em que nos deixamos colocar. Depressão, ansiedade, emoções somatizadas em problemas de saúde, isolamento. Estas são apenas algumas das coisas que tenho de lidar, e tenho de tentar superar.

Entretanto, de nada adianta tentar voar ainda sem asas. É preciso primeiro quebrar o ovo.

E o ovo é o mundo.

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Arte da capa: “Freedom of thought”, by Psyca-art, Deviantart.

sosimby

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