Mitos & Verdades da Dança do Ventre & Tribal

Nesta era de repúdio ao conhecimento e à cultura, seguir espalhando conteúdo de qualidade e desmitificando absurdos é um ato de resistência. Apesar deste assunto já ser meio batido, nunca é demais continuar frisando a verdade em um meio que ainda sofre com estereótipos e preconceitos datados. Matérias sobre mitos e benefícios da Dança do Ventre é o que não falta por aí, e aqui abordarei os principais temas.

Veremos um pouco das variadas facetas desse mundo tão encantador. Se quiseres que algum destes tópicos seja mais elaborado, diga! Quem sabe sai um post fresquinho e mais aprofundado sobre. E se tiveres alguma dúvida ou curiosidade que não foi mencionada, é só deixar um comentário! 😉

O FÍSICO

“Dança do Ventre dá barriga?” é uma pergunta razoavelmente freqüente de quem tem interesse em experimentar, mas receio de sair do “padrão”. Primeiro: NÃO. Esse é um dos maiores absurdos possíveis a serem ditos sobre essa dança. Pura e simplesmente porque a Dança do Ventre/Tribal é uma atividade física, logo, é mais provável que você PERCA barriga do que a ganhe. Dançar é movimentar-se, e movimentar-se é gastar calorias. Ponto.

“Ah, mas eu só vejo dançarina gorda por aí”. Minha cara, sugiro então que você saia da bolha onde está, reveja seus conceitos ou procure um oftalmologista. Não estou dizendo que não existam dançarinas gordas/fofinhas por aí – de fato, é provável que sejam até a maioria – BÃT, a relação disso com a atividade é pura ilusão.

Tem muita, mas muita bailarina que é magrela ou tem um corpo dentro dos padrões ocidentais, e tem outras que tem o corpo padrão de outros países, que preferem as mais “carnudas”. E tem também bailarina com todo tipo de corpo, pois não é um estilo restrito a academias elitistas e isoladas que impõe um único formato.

Qualquer tipo de corpo pode dançar. Em qualquer condição.

Pode existir uma impressão de que essa dança “dá barriga”, porque expõe bastante o ventre e a maioria nos movimentos reverbera nas ou utiliza as musculaturas do abdômen, gerando essa ilusão de “banhas extras”. Mas nada mais é que um corpo vibrante.

Além de possibilitar um exercício aeróbico, esse estilo trabalha muito musculaturas mais internas e movimentos refinados, que é a base do que chamamos de isolamento – isto é, a capacidade de mover uma parte do corpo (p.ex. o quadril) sem mexer o restante. Essa característica cria um grau de dificuldade um pouco maior no aprendizado, pois usamos muitos movimentos que não tem nenhum correlato natural no dia-a-dia. Mas nada que um bom treino e explicação não resolvam. 😉

Por fim, coisas que basicamente qualquer estilo de dança provê: uma melhoria na consciência corporal – pois aprender a dançar é sempre uma descoberta de partes do corpo que nem sabíamos que se mexiam; na coordenação muscular – pois aprendemos a mover o quadril enquanto movemos o busto enquanto movemos os braços enquanto nos deslocamos enquanto mantemos o eixo enquanto respiramos e enquanto sorrimos; na postura e acomodação da coluna; dentre outros benefícios fisiológicos que uma prática física nos dá.

O PSICOLÓGICO

Dançar não é algo repetitivo, monótono ou obrigatório. Geralmente é algo que nos interessa, nos chama, nos estimula e desperta nossa curiosidade e alegria. Graças a isso, a Dança do Ventre/Tribal, assim como danças em geral, tem um grande potencial de nos ajudar a nível psicoemocional, além do físico.

Dançando nós podemos nos divertir, socializar, rir, aprender, descobrir coisas novas. Dançando nós podemos esquecer nossos problemas cotidianos, nossos estresses com o trabalho e as dificuldades da vida. Dançando nós podemos nos conhecer melhor, perceber nossas qualidades, perdoar nossos defeitos e elevar a nossa auto-estima.

Dançar é um processo terapêutico, um entretenimento, uma alegria para o corpo e para a alma, uma ferramenta de autoconhecimento! Se você não experimenta essas coisas, é provável que seja porque você mesma está bloqueando esses benefícios. Mas se for porque alguém está lhe pondo para baixo ou lhe desestimulando a dançar, sugiro descartar logo essa pessoa de sua vida. Fikdik.

O ESTEREÓTIPO

Há quem ache que só gordinhas podem dançar Dança do Ventre, e só as magrelas esquisitas e tatuadas podem dançar Tribal Fusion. Há quem ache que só quem tem quadril largo pode dançá-las, ou que um cabelão enorme é uma obrigação. Há quem ache que somente meninas jovens podem dançar, e quem for mais “durinha” não terá chance. Há quem ache que Dança do Ventre é só putaria e rebolation, e que serve apenas para seduzir homens. Há quem ache que Dança do Ventre é sensual e feminina e, portanto, só pode ser praticada por mulheres (cis). Há quem ache que a Dança do Ventre surgiu nos antigos haréns, recheados de odaliscas e orgias, ou das ciganas prostitutas que requebravam por moedas.

Bando de ignorantes.

A Dança do Ventre e (ainda mais) o Estilo Tribal são uns dos estilos mais democráticos que há. Literalmente, qualquer um pode dançar. Mulher, homem, cis, trans, gorda, magra, jovem, velha, branca, negra, cabeluda, raspada, tatuada e até amputada. Portanto, tentar impor um molde fixo aceitável é ridículo.

São formas de dançar pura e simples, praticadas rotineiramente por até crianças e homens quaisquer nas ruas dos países árabes, sem nenhuma conotação secundária. A sensualidade e sexualização desta dança dependem da intenção da bailarina e do olhar do espectador – que nem sempre estão coerentes – e estão restritos a performances isoladas, e não ao gênero como um todo.

O Ventre como conhecemos surgiu no século XX – tipo, ontem – mas sua história vem de séculos e séculos atrás, que apareceu e se desenvolveu em mais de um lugar, de formas diversas, acompanhando inúmeros acontecimentos históricos e políticos que variavam conforme o país e época. E definitivamente não tem correlação direta com prostituição.

“Odaliscas” não eram bailarinas, e sim um estrato social baixo fora dos contextos dos haréns – coisa que foi erroneamente romantizada e alterada pela visão dos ocidentais na época do Orientalismo. Muitos dos nossos estereótipos se originaram basicamente disso: ômi branco que não entende nada.

Não há muitos registros relativos à danças na história da humanidade, o que dificulta bastante o entendimento de seu surgimento e evolução histórica. Mas o que é certo é: tem muita fake news no nosso meio.

A ARTE

A dança é uma forma de arte, que tem o poder de encantar, chocar, questionar, entreter, criar ou transformar. Em especial no caso da Dança do Ventre e Tribal Fusion, podemos dizer que são artes que também nos permitem entrar em contato com outras culturas, costumes e perspectivas diferentes das nossas.

É um imenso e recheado mundo que nos abre – mente, espírito, coração, corpo, que nos cria e recria, que nos aprofunda e eleva.

Dance!

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Arte do topo: representação italiana de um harém, século 19. Fonte.

sosimby

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