Arte focada, arte diversa

Este post foi escrito no começo de 2021.

Ou também: correlacionando biologia, arte e sociedade! XD

Para surpresa de zero pessoas, 2020 foi como um trator passando em cima da minha vida, assim como o foi pra praticamente todo mundo, de diversas maneiras, com diversos obstáculos e desafios, e tudo indica que seu legado vai ser continuado em 2021 (update: sim. XD).

Esse ano foi certamente regido pelo Arcano XVI, A Torre, que chacoalha nossas bases, destruindo as velhas estruturas pra dar lugar à renovação. Só ainda não sei se, para a humanidade como um todo, a Torre está invertida ou não. Tenham esperanças, crianças!

No meu caso, uma das coisas para a qual “serviu” esse ano, foi me fazer parar de bater a cabeça na parede e mudar minhas perspectivas. Ainda tô “reajustando” a minha visão, começando enfim a ter forças pra quebrar a casca do ovo, graças a descobertas sobre mim mesma que vieram à tona e literalmente me despertaram pra muitas coisas.

A vida me deu algumas rasteiras conforme eu tentava agir como o mundo ditava. Em especial no ano passado, ao lidar com uma montanha-russa de ansiedade, depressão e muito estresse, nas tentativas de ser produtiva, de me manter “à vista”, de acompanhar as colegas do meio, enfim, “ser alguém na vida”. Mas tentei fazer isso tudo em meio a um caos tanto externo quanto interno, indo contra a corrente da minha própria vida, ritmo e saúde.

Nossa sociedade e cultura ocidental enfatiza demais que você se especialize em algo que você é bom, e nada mais. Querem que decidamos ainda adolescentes o que iremos fazer exaustivamente e exclusivamente pelo resto da vida, e as expectativas são de que você seja bom no que faz e saiba tudo sobre assim que se forme na área. Quem não consegue, fica ostracizado, pulando de função em função sem conseguir desenvolver muita coisa.

Na natureza, existem diversos tipos de estratégias adotadas pelos animais para fins de sobrevivência e reprodução, muitas vezes opostas, e cada uma traz consigo prós e contras. Na natureza, tudo se resume ao uso de energia. Se você usa muita energia pra alguma coisa, não terá para outra.

Um exemplo é a questão da alimentação, onde temos duas principais abordagens: os generalistas e os especialistas. Em suma, generalistas são animais que têm um leque grande de possibilidades de alimento, enquanto que especialistas desenvolvem características específicas para lidar com um determinado tipo de consumo, tendo um leque mais restrito.

Obviamente isso é um espectro, com animais podendo ser classificados em ambos os tipos, mas para ilustrar com alguns exemplos: coalas são especialistas, pois comem somente um tipo de folha, do eucalipto, que é muito difícil de digerir para a maioria dos animais; onívoros, como porcos, comem de tudo, sendo, portanto, generalistas. Carnívoros e herbívoros, apesar de terem em potencial variados tipos de presas/plantas, se alimentam exclusivamente de um ou outro, logo ambos estão num espectro especialista, ainda que mais equilibrado.

Especialistas têm méritos incríveis de adaptabilidade e evolução, mas são também os mais vulneráveis à mudanças. Se você se alimenta de apenas uma coisa, e esta desaparece, você está condenado. Se você depende de um único nicho, morrerá com ele.

Mas tia Anath, o que diabos isso tem a ver com arte?

Simples. Nossa sociedade atual exige que você se torne um especialista – e mais, desenvolvendo o que você já tem de talento, deixando enterrado para sempre todos os outros potenciais dentro de você.

Claro que nem tudo se resume a diplomas, mas puxarei a Academia como exemplo disso: você escolhe uma área geral enquanto adolescente, faz a graduação toda, estagia em laboratório e deste já emenda a pós, estreitando seu leque de estudo. Ali, pesquisa o que tem disponível, mergulhando cada vez mais em um foco específico, até que você se torna um especialista na área em que estudou.

Porém, esta área costuma ser bem, beeeeeem específica. Se você deixar de gostar, será complicado sair, ou terá de recomeçar tudo do zero. Ou, em tempos atuais, com crise de emprego, ter muita qualificação acaba te tornando um inútil pra quem quer apenas um trabalho mais genérico, ou precisa de alguém de outra área.

Por exemplo, não adianta muito você ser biólogo e ser contratado pra manejo de fauna/flora, caso tenha toda uma pós especializada em genética. Você estudou as bases, mas sua especialização não ajuda numa área diferente, que seria muito melhor feita por alguém com aprofundamento em ecologia.

Pior ainda se você desejar explorar uma área fora da sua zona de conforto. Por mais amor que possa haver, o esforço extra que você terá de fazer poderá facilmente te frustrar ou deixar pra trás.

Voltando a batata pro meu umbigo, esta foi uma das minhas realizações do ano: sou generalista.

Passei a vida me criticando por não saber “nada”, não conseguir lembrar das coisas, não sentir o aprofundamento necessário na área, enfim, me sentir amadora nas áreas que me propus à explorar.

Mas, apesar dos meus pesares amnésicos, eu sei um pouco de tudo.

Posso não ser uma especialista, posso ter muito a aprender e a aprofundar em muita coisa, mas o fato é que: eu sei várias coisas. Mesmo o que não lembro mais, sei como procurar, sei como estudar, como discernir, como absorver.

Sou Bacharel em Ciências Biológicas. Nunca trabalhei na área, esqueci metade do que vi em sala de aula, mas eu sei várias coisas sobre. Tenho uma “noção aprofundada” de como a vida é complexa e fascinante, e como isso se amarra a mim, ao meu comportamento, minha mente, minhas percepções, meu mundo.

Sou Mestre em Paleontologia de Vertebrados. Estudei todo o geralzão sobre a evolução da vida, dos animais e plantas e da Terra, e me encontrei fascinada por Tafonomia (o estudo de como uma forma de vida morre e se fossiliza) e dicinodontes (herbívoros mais antigos que dinossauros e mais próximos de mamíferos que répteis). Também nunca trabalhei na área, mas o aprendizado aprofundou minha percepção da Vida, do Universo e Tudo o Mais.

Com a universidade eu aprendi a fazer pesquisa, a pensar e a desenvolver conhecimento, me relacionei com pessoas interessantes e ainda encontrei conexões com meu processo interno – como me reconectar com uma figura mais humana do meu falecido pai. Aprendi também que a ciência é cheia de falhas e gente arrogante e dogmática.

Troquei a vida acadêmica pela arte, ao me iniciar na Dança do Ventre. O amor foi tão forte, que decidi que queria viver disso. Quando na universidade, eu sempre frisei que não queria ser professora – me recusei a fazer Licenciatura XD – pois não tenho jeito nem paciência com crianças e adolescentes (ainda mais nestes tempos sombrios da Educação). Mas, com a dança, me vi fascinada por didática e o ensino (para adultos, hehe)!

Fiz cursos de aprofundamento em Ventre, Tribal, Yoga. Muito já não lembro, muito já não pratico, muito já me confundo devido às mudanças e discussões sobre cultura no meio. Mas adquiri boas noções sobre dança, sobre diferentes culturas, sobre respeito e hibridizagem. Ganhei experiência e conhecimento sobre meu corpo, sobre linguagem, sobre emoções.

Passei muito tempo tentando fazer o que eu achava que o mercado queria. Eu precisava arranjar alunas, então me focava em mostrar o mundo do Ventre, os estilos do Tribal, e ficar dentro das caixinhas pré-definidas com a intenção de atrair estudantes interessados. Fui deixando o que eu realmente gostaria de fazer cada vez mais de lado, sempre pra depois.

Mas fui tendo cada vez mais obstáculos e frustrações – afinal, alguém naturalmente sedentária, introvertida e racional não tá exatamente na melhor posição para funções que exigem atividade física, socialização e conexão emocional. XD

Hoje, começo a enxergar o que eu quero fazer, o que quero explorar, o que eu posso e consigo fazer, a valorizar a minha estrada. Minha ansiedade ainda me faz focar constantemente no “preciso trabalhar, preciso ganhar dinheiro, preciso me sustentar”, mas agora consigo perceber melhor que, talvez, seja mais fácil eu atingir estes objetivos sendo autêntica, expondo a minha real arte, do que tentando usar moldes pré-fabricados.

Meu passado acadêmico desenvolveu minha mente, meu pensamento científico e articulação. Gosto muito de analisar e correlacionar coisas e devanear sobre a Vida. A dança me reconectou com meu corpo e expressividade emotiva. Tenho noções de psicologia e meus próprios transtornos me trouxeram mais empatia para mim e para os outros.

Eu sei escrever, pesquisar, criar narrativas e histórias. Eu sei desenhar, editar vídeos, fotos, flyers, layouts. Eu sei costurar e bordar figurinos, roupas e acessórios. Eu sei que a realidade e a existência são muito mais do que parecem ser, e escolhi a perspectiva espiritual que transforma a vida em algo muito mais interessante e peculiar.

Eu posso não ser especialista em nenhuma das coisas citadas acima. Eu posso não me lembrar de onde tirei determinado conhecimento, posso não saber citar referências. Posso não saber muitas técnicas de dança, desenho ou costura. Mas eu absorvi o essencial. Eu sei ensinar. Eu sei ouvir, aprender e adaptar. Eu sei explorar e guiar você a achar seu próprio conjunto de ferramentas.

Sou generalista. Sou ampla. Sou múltipla. E vou explorar cada pedacinho meu, darei voz a cada um dos meus. Minha complexidade me fascina e quero mostrar isso pro mundo, pois sei que essa complexidade existe dentro de cada cabecinha.

A partir de agora, quero mostrar-lhes a verdadeira Anath, Anath em sua totalidade, Anath que reflete todas as camadas do meu ser. Quero explorar meu potencial, e inspirar qualquer um que se identifique ou ache interessante minhas perspectivas e abordagens.

E você? É especialista ou generalista? 😉


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