Casulo

Este post foi escrito em 2020. Resolvi não editá-lo, pois está tudo basicamente igual. Infelizmente.

2020 veio pra mostrar que a realidade consegue superar o absurdo de tal forma que até mesmo a surrealidade tá procurando emprego. Não sei como será 2021 e além, mas uma coisa ninguém pode negar:

Estamos vivendo tempos interessantes.*

Mesmo com anos e anos acumulando crises econômicas, humanitárias e climáticas, a pandemia de 2020 conseguiu puxar o tapete de (quase) todo mundo, em diversos níveis e severidades. Há aqueles que lutam por sobrevivência, por ter o que comer, beber, onde dormir, energia elétrica; há aqueles que lutam por trabalhar e manter a família com o mínimo necessário; há aqueles que lutam por justiça e direitos humanos; há aqueles que lutam para manter conhecimento e arte vivos; há aqueles que lutam para fornecer esperança aos outros; há aqueles que lutam por inclusão e empatia; há aqueles que lutam por sua própria sanidade.

E, claro, há aqueles que lutam ferozmente para se manterem ignorantes e escrotos, no desespero de se sentirem superiores. Nunca subestimem um medíocre, crianças, pois mesmo um anencéfalo pode assumir uma posição de poder e seus semelhantes se sentirão representados e encorajados a sair do esgoto, enriquecendo às custas do povo.

Com quase 10 meses de isolamento (update 2021: e contando), 2020 me trouxe uma série de questionamentos com relação ao futuro e ao agora, e também uma clareza sobre meu interior. Minha jornada de auto-conhecimento deu uma guinada, e sinto que estou entrando numa nova fase da minha vida. Este post – e, com sorte, o futuro deste site – reflete esse momento.

Isso tudo não é produto de 2020, este apenas foi o fogareiro que botou os ingredientes picados ao longo dos anos pra cozinhar no caldeirão da minha cabeça. Meu interior borbulha, agitado, dentro de um casulo, uma pupa na qual me encolhi e me isolei, e que agora começo a sentir que já não me cabe.

Ainda não sei ao certo quando terei forças pra quebrar essa bolha de auto-eremitice. Me parece que já estou formando a ferramenta que a irá quebrar, daonde sairá – assim espero – uma mariposa toda gótchyka. :p

Mas para isso não dependo apenas de força e ferramentas, mas também de esperança. Essa luz precisa chegar até os confins das minhas defesas, que me mantém encarcerada em minha própria gravidez. Defesas que refletem medo, o medo do novo, do passado, da mudança, de encarar o Abismo da existência e não enlouquecer.

Afinal, já dizia Hermann Hesse, “A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer precisa destruir um mundo.”. O quote segue, com significados ainda mais densos, mas para este post, este trecho é o que me serve.

Mas o que acontece dentro do ovo? Metaforicamente falando, claro

Pulsamos. Nos expandimos, nos contraímos, aprendemos cada vez mais, pra descobrir que menos ainda sabemos. Trabalhamos pra desfazer os nós do enorme novelo bagunçado que é nosso ser, pra depois enrolá-lo bonitinho em sua totalidade. Ou seja,

Solve et Coagula.

Talvez você já tenha ouvido essa frase por aí – ou não. Normalmente, é dita em, ou relacionada a, um contexto de transformação. Basicamente, Solve et Coagula significa um processo de separação (solve, solutio) e união (coagula, coagulatio), em latim, e é originário dos tempos medievais da alquimia.

É um conceito pré-científico, e que foi – e ainda é – usado em diversos contextos, dos mais literais aos mais metafóricos. Nos primórdios da Alquimia, o pensamento científico andava junto de conhecimentos esotéricos, então é bastante comum encontrar imagens desse processo que podem ser aplicadas tanto à espiritualidade quanto à química moderna.

O paradigma dessa questão é o mesmo que observamos na natureza e no universo como um todo: nada se cria, tudo se transforma. Nada pode ser construído sem antes haver destruição, a preparação do terreno. Nada pode ser criado sem ter antes uma matéria-prima. E nada pode ser transformado sem se aplicar energia para que a mudança aconteça.

Então, eis-me aqui, buscando uma clareza e sentido em tudo que vivi nestes 31 anos. Tentando compreender esse universo todo e vendo por onde devo seguir. E uma das coisas que me dei conta é que separar as áreas da minha vida em caixinhas não está dando certo. Acabo me forçando a seguir determinadas estratégias, porque acho que é o que deve ser feito pra conseguir trabalho e sustento, enquanto que projetos pessoais se engavetam e se empilham – e o trabalho e sustento não chegam.

Estou tentando viver de arte. Em um país que tende a não valorizar artistas. Em meio à uma crise econômica e pandemia. Obviamente isso traz um tsunami de sentimentos e percepções, que podem ser direcionados à arte e servir como terapia e matéria-prima.

Minha dança, minha arte, tudo é influenciado pela minha vida. Tenho diferentes interesses que, mesmo sendo de áreas distintas, vazam do meu ser para todos os lados da minha existência, e me parece que unificar isso tudo me será mais útil – seja pessoalmente ou profissionalmente – do que tentar separar o trabalho do resto.

Quero deixar de produzir arte me baseando no que acho que a “clientela” quer, e me focar na *minha* arte. E quero mostrar os meus métodos, minhas bases, minha abordagem e minhas vivências, pra que, se você se inspirar ou se identificar, possamos ajudar um ao outro a crescer e desabrochar em meio ao lodo que tá o mundo atualmente.

Se a energia que eu investir nisso tudo retornar à mim em forma de sustento, será um sonho realizado.

Que eu possa transmutar minha matéria-prima em ouro.

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* alusão a uma maldição fictícia geralmente creditada à sabedoria chinesa, onde o sábio lhe dirige a palavra e diz “que você viva tempos interessantes”, em alusão a épocas de grandes acontecimentos. Geralmente negativos.


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