De Onde Vim – I

Moá nos Aparados da Serra/RS, numa saída de campo da facul. 11/2012

[alerta de gatilho: menção de morte]

Se você for olhar, há todo tipo de bailarina/artista por aí. Alguns “ouviram o chamado” muito cedo na vida, experimentaram várias coisas ou até mesmo se graduaram na área que atuam. Outros não, onde restringem suas artes ao hobby ou a ser algo paralelo às suas profissões principais.

E há aqueles como eu, que basicamente caíram de pára-quedas nas artes e resolveram desabrochar após muitas crises existenciais.

Hoje quero lhes contar um pouco sobre a minha vida antes da dança, ou seja, de que contexto vim, como cheguei aqui, que escolhas fiz.

Tudo o que vivi até hoje faz parte de mim, me moldou e consolidou minhas perspectivas (ainda que estas sigam flexíveis e mutáveis). Logo, essas coisas permeiam minha arte, meu trabalho, direta ou indiretamente, e são as raízes das minhas diversas facetas.

Na Parte II você vai ver que eu, de fato, tive contato com dança cedo, na infância, mas por motivos que detalho lá, não considero essa fase como algo influente na minha vida e ela não teve peso algum na minha escolha de mudar de área.

Eu era uma criança que adorava ciências e documentários de natureza. Curiosidades sobre bichos e plantas. No ensino médio eu era a tarada da biologia, e fui uma jovem que nunca teve dúvidas sobre o que queria fazer na faculdade, que foi exatamente essa área.

Muito provavelmente a morte do meu pai quando eu tinha 6 anos teve um peso nisso, pois depois de algum tempo, foi caindo a ficha de que eu entrei para a Academia muito mais por seguir sua sombra do que por outra coisa. Ele era botânico, professor da UFRGS, e minha mãe se esforçou ao máximo pra me criar tendo a imagem dele presente, assim como seus valores.

Estudei todo o fundamental em escola pública estadual – onde minha mãe era professora de matemática -, e graças à pensão deixada pelo meu pai, ela pode me dar uma vida confortável em que pude me dedicar aos estudos. No ensino médio estudei em escola particular e ainda pude fazer um ano de cursinho quando não consegui passar na primeira tentativa do vestibular.

Passei na segunda vez (nem sequer cogitei outras alternativas huehue), para o curso Ciências Biológicas na UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – no qual me formei como Bacharel. Curiosamente, na época me horrorizava a ideia de ser professora, pois nunca tive jeito com crianças ou adolescentes.

No começo eu me cobrava horrores – afinal, eu era a “filha do profº Rogério”, com vários colegas e até ex-alunos dele por lá – então queria passar uma boa impressão. Falhei miseravelmente. bwahahahahaha.

Já no primeiríssimo semestre da faculdade, rodei em cinco disciplinas (de nove). Joguei tudo pro ar e resolvi curtir a graduação como alguém normal e mediano. Ao longo de cinco anos e meio, rodei em nove ou dez disciplinas, sempre melhorando as notas ao longo do trajeto. Nota “C de quase” recheava meu histórico. XD

Me / Also me

Considere que, apesar de não ter que me preocupar em trabalhar fora, a grade curricular era caótica e eu levava duas horas só no transporte – para IR pra facul. Mais 2hs pra voltar. Meu sono era pouco e irregular, e não havia café o suficiente pra me manter acordada. Dormir nas aulas era regra – desde o ensino médio, na real.

Qual foi a minha surpresa quando, em algum momento da faculdade, encontrei o histórico da graduação do meu pai. Ele também tinha feito Ciências Biológicas na UFRGS, embora na época dele tudo fosse um pouco diferente. Mas disso eu já sabia. O que me chocou foi ver que a trajetória dele foi virtualmente idêntica à minha! Praticamente o mesmo número de reprovações e média de notas.

Édipo mandou abraços

Foi ali que “percebi” que ele era uma pessoa como qualquer outra, e que eu não estava “falhando” por não conseguir ser “como ele”. Talvez pra você isso pareça ridículo, mas veja bem: cresci sem meu pai. Não havia como eu conviver com seu lado humano, conhecer suas qualidades e presenciar seus defeitos. E minha mãe, com toda uma carga f*dida nas costas, deu o melhor que pode pra manter a memória dele sempre presente na minha vida, e em especial as coisas boas.

Amo tu, mãe! o/

Enfim. Quando entrei na facul, eu tinha um fascínio por felinos, logo, a zoologia era o que eu tinha em mente. Porém, graças à uma série de eventos, acabei caindo de pára-quedas na… paleontologia! Passei em torno de sete anos dentro do Laboratório de Paleovertebrados da UFRGS, onde fiz meu TCC e em seguida um Mestrado.

Não me chame de Doutor, não tenho doutorado.

Me chame de Mestre.

E foi junto do Mestrado que comecei a dançar e minha vida se viu perante uma encruzilhada. Estava deprimida e sem ânimo pra seguir na carreira acadêmica – e também começando a perceber as dificuldades de conseguir trabalho na área devido às crises econômicas, fora meus próprios “problemas” em socializar, que viriam a ser um impeditivo.

Não me considero “anti-social”, mas sou introvertida e é fato que eu não tenho as habilidades sociais comuns. Não sou de bater papinho raso, não sou puxa-saco, não sei me inserir em “panelinhas” e tenho alguma dificuldade em criar contatos profissionais. Conforme eu ia percebendo essas minhas características, e como o mundo acadêmico usa e abusa disso, fui vendo que, mesmo seguindo para o doutorado e tal, a chance de que eu empacaria de qualquer forma era visível.

Claro que o mundo da dança – e, acredito, quase qualquer área da sociedade – também tem disso: a exigência de socialização, contatos, panelinhas e sorrisos amarelos. Não à toa trabalho de maneira bastante isolada. Mas, ao menos, a área artística propicia um pouco mais de liberdade e independência, coisas que não apenas valorizo, mas dependo.

Com tudo isso, o que quero mostrar à vocês é que eu nunca deixei de ser essa guria de mente racional e sistemática, que gosta de pesquisar e escrever, e que é naturalmente sedentária huehuehuehue.

E que justamente por ser assim, ter optado por largar a (potencial) carreira na Academia foi um passo gigantesco. Principalmente porque eu ~gosto da área. Gosto de pesquisar, me apaixonei profundamente pela Paleontologia – e inclusive fui agraciada pela oportunidade de participar de um artigo que foi publicado na Science!

Esquerda: holótipo do crânio de Tiarajudens eccentricus, que eu preparei, junto de outras partes, e fiz os desenhos técnicos para o artigo da Science (mais infos no meu currículo 😉 ). Direita: moá posando ao lado de uma montagem ilustrando um dicinodonte adulto rodeado por filhotes – que foram o tema do meu TCC. ^^ Ambas as fotos tiradas no Museu de Paleontologia da UFRGS.

Já a dança estava fora da minha zona de conforto. O que, per se, não é nada de anormal e, de fato, muita gente busca isso como forma de experimentar coisas diferentes de seus naturais. Mas largar uma área onde você, talvez, prosperasse, para tentar a sorte de ganhar meu sustento justamente com o que eu não me encaixo plenamente, é um desafio.

Mas, enquanto me for permitido, irei até o fim com essa quest, resistirei pelo direito de me expressar, independente de qualquer coisa. Estou fora da curva do que o “mercado” considera “ideal”, mas teimarei em abrir espaço para que mais pessoas “fora da norma” possam escolher o que querem fazer da vida.

Que todes possamos seguir nossas vidas com maior grau de escolha, leveza, alegria e saúde.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s