It’s All Bellydance – I

“Abstract belly dancer 17”, by Corporate Art Task Force

Quando busquei a Dança do Ventre pra aprender, meu objetivo inicial era me reconectar com o “feminino”, pois era essa a imagem que eu tinha. Mulheres dançando languidamente com o ventre à mostra, seguras de seus corpos e beleza. Tribal Fusion? Nunca tinha ouvido falar, nem visto. E quando o descobri, havia um sentimento de “segregação” na comunidade da dança, que via o Ventre e o Tribal como coisas completamente distintas.

Hoje, não apenas sei que isso é uma completa bobagem, como, graças, há muitos anos que um movimento de união se constroi e reconecta esses dois estilos como sendo expressão de uma mesma coisa.

Hoje, lhes trago uma pequena introdução sobre Dança do Ventre, e na Parte II teremos o Fusion Bellydance, também conhecido por Tribal Fusion (e vários outros nomes).

Dança do Ventre

Esse termo foi cunhado pelos franceses, “danse du ventre“, durante os períodos de colonização e orientalismo. “Belly dance”, termo em inglês, é muito usado aqui no Brasil também. Atualmente, talvez você encontre “Dança Oriental” ou “Dança Árabe” como correlatos, em meio às discussões sobre a validade e significado do termo “bellydance/dança do ventre”.

Se caracteriza principalmente pelo uso de movimentos isolados do quadril.

Mito #1: A Dança do Ventre surgiu no Antigo Egito e é uma dança milenar associada ao Sagrado Feminino e auxiliava a preparação para o parto.

Ao contrário do que muita gente pensa, não existe uma origem única e milenar desse estilo de dança, muito menos evidência de seus usos e propósitos. BÃT, há meias-verdades nesse mito, e é isso que facilita a disseminação de “fatos” sem respaldo histórico.

Confesso que eu sou péssima pra guardar informações históricas detalhadas, sou daquelas que absorvem o “geral”. Mas quem quiser se aprofundar nos estudos, indico aqui o grupo Hunna, que são bailarinas historiadoras que divulgam informações com base históricas, fornecendo referências e indicações de fontes e livros. Em breve pretendo organizar um post ou seção do site focada em bibliografia. 😉

Em resumo, a Dança do Ventre tal como conhecemos – mulheres esbeltas (segundo o padrão vigente), usando trajes de duas peças ricamente bordados, saias esvoaçantes e geralmente semi-nuas e sensualizantes – nasceu no início do século XX, graças à Badia Masabni.

Badia foi uma mulher de origem sírio-libanesa e uma das primeiras a ser dona de restaurante/clube noturno no Cairo, Egito. Foi ela a responsável por repaginar a dança que já existia por séculos, para uma estética mais “glamurosa” e “chique”, e lançou à fama diversas bailarinas famosas da Golden Age, como Tahya Carioca e Samia Gamal. Antes dela, temos séculos e mais séculos de história, que se passam em diversos países, culturas e governos.

Porém, a arte da dança é naturalmente efêmera, e antes do advento das câmeras, só o que temos são registros ínfimos que tentam descrever as performances vistas – e geralmente tais descrições foram feitas por ocidentais.

É possível que o Antigo Egito tenha deixado alguma influência como herança nas manifestações artísticas? Sim. Há evidências concretas disso? Não exatamente. Assim como seu uso. Sabemos que muitos povos antigos tinham a dança como vetor de várias coisas, como ritos funerários, celebrações de primavera ou abundância, devoção à deuses e puro e simples entretenimento. Havia espaço para o uso ritual relacionado à nascimentos? Acredito que sim. Temos evidências confiáveis disso? Not sure.

O consenso é que a Dança do Ventre pré-Badia Masabni é, na realidade, um conjunto de manifestações artísticas de diversos povos ao longo dos séculos, sendo as tribos nômades e ciganas as maiores fontes e facilitadoras de trocas culturais, em especial as Ghawazee. Logo, é mais correto pensar que o passado desse estilo e seus usos são, literalmente, raízes bastante diversas. Atente para o plural. O que nos leva a outro mito:

Mito #2: Existe uma forma de dançar o Ventre que é o “correto”, “puro” e “original”.

Miga. Esse tipo de coisa geralmente é dita por gente arrogante que se acha dona da verdade.

Veja bem: a Dança do Ventre que conhecemos tem diversos elementos culturais “estrangeiros” imbuídos, com alguns provenientes da Espanha e do Flamenco, e muita coisa do Ballet Clássico europeu (cof cof arabesque cof).

Ao longo dos séculos os povos nômades absorviam coisas de cada país que passavam – estima-se que as Ghawazee são originalmente da Índia – e se adaptavam a governos ora opressores, ora libertários. E mesmo o que havia antes de Badia não era algo fixo. A forma como Ghawazees dançavam no século XIX certamente é muito diferente da forma que faziam nos séculos anteriores.

Aí, você pode argumentar que o Folclore Árabe é a dança “original”, porque é uma dança de “raiz”, “tradicional”.

Miga.

É fato que os folclores visam representar a cultura tradicional em questão, mas o que muita gente esquece é que tais manifestações foram adaptadas ou criadas para funcionar nos palcos, de maneira a encantar sua plateia. Mahmoud Reda foi um dos grandes responsáveis por isso, pesquisando e adaptando uma série de danças típicas do Egito.

Logo, o que você vê no palco como Folclore Árabe é uma *representação*, e não a manifestação in situ, que seria o considerado “original”. Uma prova disso é o Meleah Laff, uma dança que sequer existe! Esse estilo folclórico visa *ilustrar* através da dança um comportamento cultural típico.

Além disso, aqui o mesmo raciocínio sobre a origem da Dança do Ventre se aplica: as manifestações “raiz” das tradições orientais que vemos atualmente são iguais às de 3, 5, 7 séculos atrás?

Obviamente não.

Mas, esse assunto é extenso e poderemos ~discorrer mais sobre no futuro. Por ora, vamos aproveitar a Era YouTube e assistir uma gama de vídeos que ilustram as muitas faces da Bellydance. 🙂

Pra começar, temos dois dos primeiros registros em vídeo de dançarinas Ghawazee. Ganharam fama nos Estados Unidos no final do século XIX, conhecidas por “Little Egypt”. Teoricamente, esse nome era de uma bailarina em específico – provavelmente Fatima Djemille – porém outras que ganharam fama também ganharam essa designação.

O século XX se tornou o que chamamos hoje de Golden Age, ou seja, a Era de Ouro das bailarinas egípcias, em especial – mas não somente. Com a glamurização da dança e sucesso hollywoodiano do cinema árabe, muitas bailarinas – que participavam dos filmes tanto como atrizes quanto com performances – ganharam fama mundial.

Taheya Carioca
Suheir Zaki
Samia Gamal

Adentrando agora a atualidade, a Dança do Ventre se subdivide em vários estilos. Um deles é a rotina clássica, que refere-se à uma estrutura na performance e expressividade que acompanha a tradicional música clássica árabe. Atualmente essa rotina é um tanto difusa, pois essa vertente musical costuma ser muito longa, e, com as atuais exigências de tempo em eventos (e paciência do público), as músicas acabam sendo editadas, cortadas e reduzidas, eventualmente perdendo sua estrutura original.

Mas, de maneira geral, os principais aspectos são: introdução dos músicos (trecho geralmente ignorado pela bailarina, refletindo a atenção que originalmente era para os músicos), entrada da bailarina (comumente com muitos deslocamentos e uso de véu, para uma boa apresentação inicial), mudanças cadenciais (onde a bailarina expões sua técnica e leitura musical), taqsim (trecho mais introspectivo, emocionalmente denso), solo de derbak (trecho puramente percussivo), folclore (onde a bailarina demonstra seu conhecimento), e finalizações.

Ju Marconato

Um dos estilos mais alegres e adorados é o solo de derbak! Como o nome diz, é um trecho da música clássica árabe ou uma música inteira feita somente por percussão, em especial pelo derbak, o tambor árabe típico. Aqui a bailarina lê as batidas com maestria, demonstrando sua capacidade técnica.

Esmeralda Colabone

O Folclore Árabe é extremamente rico e amado por muitos, havendo danças típicas de diversos países do Oriente Médio! Há tradições de vários cantos do Egito, e outros folclores de países como Líbano, Golfo Pérsico e regiões do deserto e subsaarianas que ganharam fama também.

Saidi – folclore egípcio
Khaleeje – folclore do Golfo Pérsico
Tanoura – folclore egípcio
Dabke libanês
Dança Núbia – folclore do sul do Egite e norte do Sudão

A Dança do Ventre se vale muito também do uso de acessórios, para incrementar e diversificar as performances. Um dos mais populares são os véus, amados principalmente pelos ocidentais, e o que possui mais variações. Existe desde o véu simples e seu uso múltiplo (duplo, sete véus, etc.), ao véu wings, fan, poi e flat, cujos tecidos podem variar também. Além desses, há o uso de espada, punhais, taças, jarros, pandeiros, snujs, bastões, lenços e até mesmo serpentes.

Véu duplo
Dança com espada

A globalização também permitiu que outros estilos de Dança do Ventre emergissem: a moderna e as fusões. Músicas de cantores árabes pop, movimentos mais amplos e impactantes, figurinos diversificados e criativos, maior liberdade artística e experimentações com outras danças caracterizam essas vertentes.

Dança do Ventre Moderna/contemporânea
Fusão de Dança do Ventre e Capoeira
Metal Bellydance

A Dança do Ventre gótica e o Metal Bellydance estão numa “área cinzenta” entre a Dança do Ventre e o Tribal Fusion – já que este também dialoga com estes temas, como no caso do Dark Fusion, e muitas vezes não é fácil discernir onde um determinado vídeo se classificaria.

Em teoria, todo Tribal Fusion é uma Dança do Ventre de Fusão, mas nem toda fusão com Dança do Ventre é considerada Tribal Fusion. Porém, contudo, entretanto, todavia, este é um assunto complexo, e atualmente as fronteiras entre a Dança do Ventre, suas fusões e o Tribal Fusion estão cada vez mais diluídas.

Na Parte II falarei um pouco sobre esse estilo contemporâneo que ganhou o mundo!

No meu canal no Youtube você encontra uma playlist, “Bellydance History: Ghawazee, Little Egypt, Badia Masabni and Golden Era“, recheada de vídeos representantes do trajeto desse estilo. E em breve terei várias outras com exemplos de vertentes atuais específicas! 😉


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