Dharma Fusion – Hibridizações para além da dança

Performance “Wheel of Fortune”. 2018. Fotografia de Claudio Etges.

Como falei aqui, o estilo Fusion Bellydance permite uma miríade enorme de expressões e experimentações. Graças a isso, muitos “subgêneros” foram desenvolvidos ao longo do tempo, por bailarinas que não se viam representadas pelo contexto artístico em que se encontravam, ou que então construíam algo que era muito diferente para uma determinada descrição.

Em geral, tais novidades expressam uma ênfase, uma abordagem ou mistura diferente, uma tribo ou subcultura. Por exemplo, Indian Fusion intensifica os elementos da dança clássica indiana, enquanto que o Dark Fusion se une à subcultura gótica.

Um outro subgênero que se estabeleceu é o Tribal Ritualístico, que é, basicamente, associar a dança à contextos rituais, espirituais e/ou religiosos. Neste caso, não há uma técnica específica, apenas a intenção ritualizada ou expressão religiosa. Há o “Dark Ritualístico”, que é a mesma coisa, porém com ênfase no Dark Fusion ou temas obscuros. Nas gringas já vi o termo “Temple Fusion” e semelhantes, ou apenas “Sacred Dance”.

Quero ressaltar que o termo “Temple Tribal Fusion” foi registrado pela bailarina Tenley Wallace, e o “Temple Dark Fusion” foi cunhado pela bailarina Yiskah Lilith à sua própria abordagem. Friso isso aqui pois não faz muito tempo que eu cometi a gafe de achar que o termo de Yiskah e de Tenley era algo generalizado que estava sendo usado pela comunidade, e sem ter consciência do meu erro, saí utilizando os termos.

As performances consideradas ritualísticas costumam ter uma estética ou dinâmica que revela esse traço espiritualizado, seja pela caracterização de alguma deusa ou uma performance claramente devocional. Exaltações ao Sagrado Feminino é um dos temas mais frequentes.

Meu interesse pessoal com a dança flerta exatamente com a abordagem ritualística, entretanto, sempre senti que meu estilo não é exatamente o que as pessoas esperariam de uma performance ritual. Obviamente há bastante diversidade de expressões e, tecnicamente, o que eu faço é, de fato, o “Tribal Ritualístico”.

Então porque, exatamente, optei por um termo específico à minha maneira de criar?

  • Quase sempre minhas performances rituais não têm a estética ou dinâmica que o público costuma associar ao estilo. Isso porque eu as crio a partir de questões pessoais, relativas ao meu próprio Caminho Espiritual e processos de autoconhecimento, e muitas vezes elas sequer têm conexão com algum tema espiritual “visível”.

Por exemplo, se eu um dia quiser invocar a energia de Kali na minha dança, eu não preciso, necessariamente, me pintar toda de azul, mostrar a língua e ter crânios no figurino. Isso é algo útil caso eu queria que o público saiba do que eu estou “falando”, mas não ter esses elementos não me impede de trabalhar com o simbolismo dessa deusa.

Há uma diferença entre representar um arquétipo e vivenciá-lo.

  • O motivo anterior reflete, também, uma questão de pura comunicação. Quando falamos, por exemplo, “eu danço Dança do Ventre”, se espera que sua dança apresente os elementos mínimos característicos do contexto. Não faz sentido você vestir um figurino oriental, usar música árabe e técnica correta do Ventre e dizer que sua performance é de Ballet Clássico. Há uma discrepância entre o que você apresenta e o que você faz, e isso traz apenas confusão.

Isso é diferente do caso intencional de fusionar Ventre e Ballet, por exemplo. Seja para uma performance criativa ou até para uma sátira, você irá mesclar os elementos de forma que o público entenda a sua mensagem, ou pra que você atinja o efeito que deseja nessa mescla.

Então, quando decidimos representar um determinado estilo de dança, vamos nos ater à suas características básicas, e desenvolver nossa criatividade em cima disso. Porém, quando você quer ir além de algo pré-definido, seja qual for o motivo, dependendo do caso sua abordagem pode requerer maiores informações, e por vezes uma nova nomenclatura é o que auxilia.

É o caso do Dharma Fusion. Eu parto de bases técnicas como a Dança do Ventre e o Fusion, mas minha intenção não é representar esses estilos, e sim usá-los como trampolim para a minha própria arte, uma ferramenta de expressão pessoal. Diferenciar o que faço me traz mais liberdade – especialmente em tempos tão questionadores.

  • Minha filosofia é que algo “ritual” serve à um propósito de transformação ou experimentação e deve haver algum nível de consciência sobre. Ou seja, deve haver algum intento por trás. Por exemplo: digamos que você viu duas bailarinas dançarem, separadamente, uma performance baseada no arquétipo de Afrodite. Ambas usam um figurino que enfatiza a feminilidade (segundo o padrão cultural vigente), com elementos visuais que delatam a deusa, fazem movimentos sinuosos e uma expressão sensual.

Porém, uma delas usou Afrodite apenas como tema de inspiração, talvez para um show temático, ou simplesmente por ser uma deusa bastante conhecida. Sua dança não tem nada que a diferencie de uma performance “normal”, e possivelmente ela sequer estudou sobre a essência do arquétipo. Já a outra pesquisou sobre seu simbolismo e criou sua performance com o objetivo de se conectar à energia da deusa, talvez como uma forma de curar feridas ou se empoderar enquanto mulher, desenvolver sua sexualidade e auto-estima.

Sua performance não é muito diferente da anterior em termos estéticos e expressivos, mas há uma diferença crucial: a intenção por trás. Na minha visão, a primeira bailarina “apenas dançou”, sem haver nenhum objetivo pessoal ou espiritual de crescimento. Já a segunda, mesmo que sua dança não acusasse a presença do intento, eu considero, sim, como ritualística, pois a bailarina construiu um espaço específico para experimentar esse tipo de energia.

Eu, pessoalmente, não considero como “ritual” algo que é apenas encenado.

  • Eu não diferencio minha vida cotidiana do Caminho Espiritual, pois pra mim tudo é a mesma coisa. Portanto, tudo o que eu faço acaba tendo um objetivo ou consequência “ritual” pra mim. Entretanto, como ilustrei no exemplo acima, eu só classifico algo como “ritualístico” se houver conscientização do intento.

Por exemplo, eu busquei a dança, inicialmente, pra me conectar com meu lado feminino reprimido, então todas as minhas danças nos primeiros anos já eram vivências que eu absorvia, e que trouxeram grandes aprendizados. Mas, eu não usava as performances conscientemente como ferramentas de transformação ou algo do tipo, então não me faz sentido querer classificar tudo o que já fiz como “Dharma Fusion”.

Contudo, já há alguns anos fui aprimorando minha consciência e experimentações com a dança ao ponto de poder discernir quando definir as performances como tal. Então, quando você me vir dançando e tiver a informação de que é Dharma Fusion, já sabes que há um contexto importante pra mim por trás.

  • Por último, quero ressaltar que, no final das contas, tudo isso que falei é subjetivo, relativo à percepção de cada um e à forma como classificam as coisas. Por exemplo, haverá performances do tipo “vazia”, mas que serão chamadas de “ritualísticas” por conta da estética ou linguagem devocional, assim como alguém que, conscientemente, busca a dança pra, sei lá, trabalhar a timidez, estará fazendo o que eu vejo como ritual, mas sua dança estará longe de qualquer simbolismo específico.

Ok, mas Tia Anath, o que diabos é Dharma afinal?

Em resumo, “dharma” é um conceito complexo encontrado em diversas religiões/filosofias orientais, como Hinduísmo, Budismo, Sikhismo, etc. Não existe uma tradução simples para ela, e seu significado difere dependendo da fonte. O uso que faço é próximo do budista, cuja simplificação seria como “lei cósmica”. Gosto de usá-la como sinônimo de Caminho – isto é, a jornada espiritual pessoal de cada um, a estrada definida pelo Self para a evolução interna e eventual Libertação.

Minha arte mescla muitos fatores que refletem a minha mente e alma, e tudo isso é usado a favor do meu desenvolvimento pessoal e espiritual, além de profissional. Portanto, tudo o que faço tem o objetivo de aprofundar esse trabalho e expandir minha consciência, de forma que eu possa perceber meu dharma e alinhar minha vida à seu fluxo.

Como falei, eu não separo a vida cotidiana da “vida espiritual” ou artística, pois tudo é dharma, logo o termo cai como uma luva para ilustrar como abordo a dança e a arte. Além disso, eu poderia traduzir o termo como “Fusões de Caminhos”, porque eu vou além das fusões entre danças e expressões corporais.

A Dança é apenas uma das ferramentas que “misturo” para as minhas experimentações. Outras são conceitos da Psicologia – majoritariamente da Arquetípica, Jung & Hillman; Hinduísmo e Budismo – esotérico, Dzogchen; e Ocultismo – numa vibe Magia do Caos.

Posso dizer que o principal foco da minha existência é o autoconhecimento. Quanto mais me conheço, quanto mais me aprofundo no meu ser, mais eu me aproximo de compreender os outros, o que quero da vida e o que posso oferecer ao mundo.

Hoje, aos 32 anos, me sinto segura em dizer que, ao menos internamente, adquiri um bom grau de sabedoria e amadurecimento. Minha perspectiva da realidade tem ficado cada vez mais complexa, e um dos meus desejos é conseguir traduzi-la em palavras – e arte – para que você possa conhecer uma forma de perceber o mundo e a sua vida que vai além do cotidiano.

A Vida é uma experiência passageira, única e limitada, mas que também é fascinante, complexa e infinita. 😉


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