Retornar, Reconsiderar, Reaprender: 10 anos de dança!

Espetáculo Mulheres e Mitos (2012). Fotografia de Claudio Etges

No verão de 2022 completei 10 anos desde que pisei numa escola de Dança do Ventre. Na época, minha vida estava numa encruzilhada, de onde tomei a estrada da Arte que trilho até hoje, e falei um pouco aqui. Mas, embora a marca de uma década seja motivo de comemoração para muitas, para mim esse dia chegou em meio a um novo período de questionamentos sobre por onde seguir.

Enfrentando uma pandemia que já dura mais de dois anos (e contando, não acabou ainda, gente!) e que agravou meu isolamento, um caos político e econômico generalizado que só alimentou minhas ansiedades sobre sustento e futuro, e uma depressão profunda que afeta toda minha estima e capacidade criativa e trabalhadora… Refletir sobre minha jornada e decisões acaba sendo natural.

Mas hoje quero escrever sobre meus aprendizados nestes 10 anos! Independente dos objetivos que atingi ou não, viver é absorver experiências, e uma década de vivências pode trazer um imenso amadurecimento.

Corpo & estima

Creio que um dos primeiros efeitos que senti ao começar a fazer Dança do Ventre foi uma melhoria da minha autoestima. Ver colegas e professoras com todo tipo de corpo e capacidade fez a percepção das minhas “banhas” mudar, me fazendo ver o charme das curvas e na reverberação dos movimentos na carne.

Descobri que tenho uma boa coordenação corporal e consciência de movimento – embora seja péssima em sentir musculaturas ativadas (exceto quando doem :p) –, e que aprendia rápido a técnica (o que é diferente de fazê-la bem XD).

Isso me deu um belo gás de motivação no começo, mas obviamente que o caminho é mais árduo. Ao longo dessa década, poderia dizer que a minha estima melhorou bastante, tanto em termos estéticos quanto confiantes, mas essa melhoria não é absoluta, muito menos constante.

Com um corpo fora do padrão, sigo tendo meus dias ruins e tendo de constantemente lembrar como o mundo nos fere e a ativamente buscar por influenciadoras que mostram que é possível sair desse ciclo patriarcal. A depressão foi um “plus” que veio com tudo na pandemia (mas já estava se instalando antes) e me tirou do eixo, minando novamente a minha estima e confiança na minha capacidade.

Mas apesar dos pesares, estes anos todos me ensinaram a buscar o movimento e o exercício como um autocuidado, e a dança como um combustível de expressão e criatividade, em vez de seguir atrás de um corpo de padrão impossível e fama baseada em técnicas competitivas.

Book fotográfico, 2014, por Ricardo Baumart.

Contexto & ritmo

Descobri também que você pode evoluir mesmo tendo um ritmo mais lento. To longe de ser uma pessoa hiperativa, e sedentarismo sempre foi o meu natural. Com a dança (e o yoga), deixei de ser tão parada, claro, mas não fui para o extremo oposto. Não danço todos os dias, não treino com frequência, e preciso me esforçar pra conseguir um mínimo de exercício ao longo da semana.

É óbvio que, se eu tivesse me dedicado mais e fosse mais ativa, certamente estaria melhor em muita coisa hoje. Mas meu ponto é: mesmo não fazendo o “indicado”, eu pude crescer. Segui meu ritmo, tive, e tenho, de lidar com muitos outros obstáculos, sei do contexto da minha vida e escolhas e que não adianta ficar me chicoteando pelo que deixei de fazer.

Meu objetivo nunca foi “ser a melhor”, ter uma carreira internacional ou coisa do tipo. Não gosto de competições, e ver o quanto alunas sofrem com esse tipo de pressão, mesmo não tendo tais desejos, é triste. Precisamos parar de nos comparar com os outros, e entender melhor nossos próprios contextos de vida, perspectivas e objetivos, e buscar o equilíbrio entre nosso ritmo e desejos. Por exemplo, se você quer se tornar uma bailarina internacional, certamente terá de suar muito, aprimorar a técnica e atender às expectativas do mercado (o que tem seus problemas, mas isso é outro tópico). Se você não tem essa meta, não precisa se matar treinando só porque sua professora ou colega o fazem.

Parte das minhas reflexões destes 10 anos é justamente compreender e aceitar o meu ritmo, desejos e obstáculos. É entender melhor as minhas limitações atuais, como elas impactam o meu dia-a-dia, e como eu posso lidar com isso.

Zona de conforto & Sombra

A dança não me fez sair da zona de conforto só pelo movimento, mas também pela expressividade não-verbal. Além de sedentária, sempre fui do tipo “intelectual”, mais racional e observadora, acostumada à dinâmica de ler artigos científicos e elaborar monografias. Não que tais qualidades não existam ou não sejam usadas no meio cênico – muito pelo contrário! Me refiro à minha “configuração pessoal”, de alguém bastante reservada, “fria” e com problemas para expressar emoções.

Achei que teria bastante dificuldade em me apresentar. No início, eu já tinha algumas noções sobre o conceito psicológico de “Sombra”, nosso lado “não desenvolvido” e reprimido, e sendo o ser de mente sistemática que eu sou, pensei que eu seria a típica bailarina que só conseguiria montar coreografias bem planejadas e ficaria toda “dura” de nervoso nos palcos.

Eis que logo no fim do meu primeiro ano, me enchi de confiança e me joguei num solo mal e mal ensaiado. E se você espiar meu canal no Youtube, vai logo perceber que a esmagadora maioria dos meus trabalhos solo são… improvisos.

Festival Tribal Sul, 2017. Fotografia de Tatieli Sperry

Descobri que a dança, de maneira muito natural, “puxou” a minha Sombra à tona. Desde o início recebi elogios sobre a minha expressividade e energia no palco, além de muitos comentários pasmos quando digo que uma apresentação foi de improviso.

Essa naturalidade e confiança de simplesmente subir no palco e deixar fluir é algo fora do “normal” pra mim. Eu esperava que teria de treinar essas coisas. Ganhar experiência e habilidades que trariam essas qualidades. E embora eu tenha muito o que melhorar nesses quesitos – além de querer implementar mais estrutura –, essa percepção de mim mesma nesses contextos me abriu muito pro meu próprio interior.

Didática & O que busco na arte

Antes de entrar na dança – e de cogitar meu sustento com base nela – eu sempre fui enfática quanto a não querer ser professora. Me recusei a fazer licenciatura na faculdade por conta disso, e dar aula para universitários era o único cenário docente que eu consideraria participar. Nunca tive jeito com crianças e adolescentes, então sempre evitei contextos que os envolviam – e ainda o faço, embora abra exceções.

Porém, conforme observava as diferentes didáticas das professoras que eu ouvia, e por conta do estágio no primeiro curso de formação que fiz, percebi que me encantava explicar como fazer um movimento e falar sobre as diversas possibilidades do mundo cênico. Logo, ensinar dança foi um caminho que escolhi com gosto.

Meu foco sempre foi o entendimento da aluna sobre o que ela está fazendo, buscando informar tudo o que sei, os diversos detalhes, as diferentes formas de executar, como criar variações, e tudo o mais que ela precisasse saber, seja a nível técnico, expressivo ou cultural.

Mas, nem tudo são flores. Nestes 10 anos, diria que acumulei pouca experiência em termos de sala de aula, e, embora eu tenha consciência de uma série de fatores externos (como a crise econômica), é um tanto complicado não questionar a minha capacidade enquanto professora – ou ainda, o meu carisma no quesito. O caminho do ensino de dança é o que eu mais tenho questionado, embora me encante. Por hora ainda insisto, e estou compilando praticamente tudo o que sei num curso de Formação – mais detalhes na aba Cursos.

Por muito tempo deixei de explorar a arte enquanto “minha própria voz” em prol de ensinar os estilos “definidos”, tanto de Dança do Ventre quanto de Fusion, pois achava que devia separar os meus interesses pessoais de artista do potencial interesse das alunas. Muitas vezes, isso se infiltrava até mesmo nas minhas performances em eventos, pois pensava “oh, preciso mostrar para as pessoas o que é o Tribal Fusion”, ao invés de simplesmente expressar a mim mesma.

Soma-se a isso o medo de fazer algo de “errado”, cometer alguma gafe cultural, dar alguma informação errada, ou ainda, nos tempos atuais, ser “cancelada”, visto que é muito fácil tropeçar em questões de apropriação cultural no meio em que trabalho, ainda mais sendo um palmito de classe média.

Assim, resolvi me despir das vertentes estabelecidas e buscar o “miolo técnico” que uso, onde a partir dele podemos explorar tanto os estilos mais tradicionais quanto os mais contemporâneos. Sigo na minha jornada pessoal em busca da minha voz artística, mas agora sei que o que eu quero ensinar é essa “língua”, pra que você possa encontrar a sua.

Criatividade & Outras artes

Por fim, a dança acabou me levando para outras formas de arte. Por conta da necessidade financeira, optei por fazer meus próprios figurinos, e nisso surgiu o encantamento pela costura e artesanato. Artes visuais como desenhos e edições de imagens/fotos e vídeo são mais recentes, mas pretendo me aprofundar e experimentar, pois são coisas que me atraem desde adolescente.

Assim, unindo a necessidade com o fascínio, tenho me aberto a estes outros meios de fazer arte. Ainda não sei se esse será o meu caminho, pois a estrada ainda está escura, mas se a vida não me der uma rasteira, poderei investir no meu eu artístico de uma maneira mais abrangente. Um dos meus atuais desejos é me qualificar como arteterapeuta, pois o universo da psicologia sempre me fascinou, assim como o poder da arte para expressar nossos interiores e ajudar em processos de cura.

Independente das faltas, 10 anos dentro do mundo da dança não é pouca coisa. Aprendi muito nessa estrada, e agora busco reavaliar meus passos para ter mais segurança onde piso. Que venham mais 10, 20, 30 anos de arte!


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