CASULO

Prisão de Nós Mesmos

Eis que crio um amontoado de artes, e quando as conecto, percebo que suas conexões refletem a mim mesma nos últimos anos. São expressões diversas, que vazam pelas frestas das grades da minha cabeça, tentando desesperadamente existir, se expressar, comunicar e acrescentar. Tentam mostrar o que se passa aqui dentro, o que meus olhos veem e o que meu pulso circula.

Mas como qualia é algo impossível de ser dividido, tenho que traduzir a subjetividade da minha mente em palavras objetivas e afiadas. Só que sou uma nuvem, uma concentração de consciências cujas arestas são difusas, tentando usar um leque de línguas que não bem se encaixam. E algumas, em sua perspectiva ferida e descrente de felicidade, se fecham e erguem muros que nos amordaçam.

Na frustração dessas dissonâncias com o mundo de cá e de lá, me vejo presa e sufocada, por linhas invisíveis que me atravessam e amarram. Tampouco eu mesma sei muito sobre minhas artes. Elas fluem sobre bases que me guiam numa narrativa, mas no final, suas profundezas eu desconheço e contemplo para tentar entender.

“Casulo”, a obra, se inspira no casulo, a casca. Nascida das dores dessa realidade, com um mundo decadente em sua humanidade e você ali, perdido no caos, agarrado ao último vaga-lume do túnel escuro e frio, esta obra é, na verdade, múltipla.

Surge junto de um mar de outras palavras, que se conectam em camadas e associações, destacando conexões mentais e revelando segredos e sensações. Cada uma, quem sabe, produziu uma ideia, uma projeção para se fazer criar. Todas elas contam alguma coisa, mostram uma faceta do momento vivido, falam de assuntos internos, deixam escoar palavras que não existem e que nos deixam divididos.

Esta obra, de muitas mãos, reflete vivências pessoais que se arrastam há muitos anos, de braços dados com o coletivo que grita o mesmo som, silenciosamente. O isolamento forçado pela pandemia, somado ao hábito eremita de uma pessoa introvertida, caminha junto do medo da morte e a tortura do passado, enquanto navega um mundo em colapso.

Os constantes conflitos e apego a realidades, o interminável questionamento de tudo e de todos e a discórdia de percepções, a vontade de sumir, de fugir, de desaparecer, de não existir. O pulso entre respiros e pessimismos, entre ânimos e turbilhões, entre apatia e conexões. As diferentes vontades da vida, de vivências e de vozes, como cordas que puxam para lados distintos, esmagando a pele, o osso, a garganta, amordaçando um mundo quase extinto.

SHELL


Casulo.
Casca.
Pupa.
Crisálida.

o ovo que lhe contém.
seu mundo, sua realidade, ecoam
ondas ínfimas infinitas infames
que falam de volta ao refletir
na cristalina parede da mente.

isso somos, e somente isso
uma existência pulsante
enclausurada em si mesma.

preciso sair.

o movimento da vida tornou-se espetado
pelas muitas agulhas de ações terceiras.
mas o que há do outro lado?

o que irei encontrar, se não
os braços de quem segura as lanças?


“Casulo” fala sobre medo. Medo do mundo, medo de si, medo da mudança, medo do que está por vir. Representa a caverna, o refúgio, a armadura criada por uma vida de receios e estradas feitas de ovos. É o isolamento de uma fase permeada por desconfianças, o questionamento da paisagem lúdica e aconchegante, que, quiçá, esconde surpresas agudas e impactantes.

Um espesso escudo foi cultivado, fruto dos conflitos inquietantes que não receberam atenção, reflexo de um mundo doente em sua função. Numa vida navegante de águas imprevisíveis e hostis, nada mais necessário que uma grossa defesa pra não se deixar partir. O mundo é uma selva sutil, e a mente precisa estar atenta aos sinais da floresta.

A humanidade agarra-se a visões de mundo e cerca-se dentro de si, cada um de você, para depois apontar os dedos contra seus pares, num jogo infinito de ódio e insanidade. Qualquer gente, cada um de você, pode ser o próximo esmagado por forças fanáticas e delirantes. Existir tornou-se um ato de resistência, uma oposição que exige cerne, um cerne que já não sei o quão rachado está.

ASFIXIA


preciso respirar.

viver silenciosamente já não me cabe.
a invisibilidade que me protege
é a mesma que me desaparece.

as tiras, os panos, as gazes,
são como cordas que me sustentam,
mas por entre as tramas fugazes,
meu olhar escapa
e clama por jorrar sua luz.

a expressão, a individualidade,
embora exigidas,
são foco de dedos julgadores,
que buscam moldar
aquilo que lhes falta.


“Casulo” fala sobre amarras. O sufocamento da existência, a prisão da autopercepção, o desconforto de não conseguir expor-se de maneira real. Num mundo que lhe tira e lhe dá conforme o gosto da sociedade, que lhe ensina a calar-se enquanto pede pra se revelar, pois sem isso não há cura para as dores sofridas, enquanto as mesmas mãos lhe fazem motim.

A ironia da liberdade encarcerada, o medo da retaliação, a necessidade da autoafirmação e exigências de validação. Nos cegamos perante a ilusão, esquecendo, deixando pra depois. Queremos falar, mas, fragilizados, permanecemos em meio às cinzas da neblina.

Os outros, os próximos, a equipe, a família. O desequilíbrio entre as forças coletivas e individuais, as incongruências pelas quais somos obrigados a viajar. Há sempre um outro lado, há sempre uma violação, e há sempre o alguém que aponta em ambas as direções.

IMPLOSION


I try to breathe
I try to reach
I try to open
They block the speech

I pulse
I feel
I hush
How surreal

The questions
The worries
The disbeliefs
The furies

Again inside
Coalescing all directions
Observing, invisible
The crushing bones


“Casulo” fala sobre colapso. A sensação do pilar rachando, a sanidade já não mais promete ficar ali, a desesperança te corrói a polpa dos ossos, e sonhos de libertação aguda ameaçam se abrir. A depressão tem muitos rostos, assim como rolos que te passam por cima, te tirando o ar e te fazendo desistir.

Você sente a pressão somando, a experiência de sentir-se um buraco negro, implodindo em si mesmo, escuro, denso, invisível e isolado. Não há para onde correr, para onde fugir, para onde gritar ou para onde lutar. Nem sequer a explosão, muito menos o desaparecer, lhe são permitidos, pois é impossível não-se-ser ou tomar decisões sobre o que foi dito.

NOVELO


Nós.
Nos.
Neles.

enroscados na realidade
tentando encontrar o caminho
não será possível
sem aprender a discernir.

as linhas, em suas tramas
têm pedras na história
que nos levam adiante
e perante as provas.

como teias de aranha,
ou Ariadne,
somos presa, somos tela
somos labirinto em inconsciência.


“Casulo” fala sobre dúvida. O receio de não saber pra onde levam os passos que estás prestes a dar. É a visão de muitos caminhos, intercalados, enozados, as possibilidades emaranhadas esperando a quebra da casca. É enxergar conexões e fios em busca das causas do sofrimento, apenas para chegar na frustração de não encontrar as raízes e a solução para aquele momento.

Tudo é simples, tudo é complexo, pois ambas as visões coexistem no mesmo novelo. São apenas linhas lineares, mas sob um olhar cuidadoso, se descobre os infinitos fios e pontas que constroem aquela lã. O desafio é encontrar os nós, que coagulam o sofrimento e as encruzilhadas que tanto consomem nossa sanidade.

CLAUSURA


Caixa.
Cerco.
Cláusula.

como um contrato,
estabelece limites,
que dita o tom de nossa voz.

a casca é um limiar
entre dois mundos que mal conseguem
citar e conversar.

assume-se a homogeneidade,
sem levar em consideração
os parágrafos individuais.


“Casulo” representa uma câmara. O cômodo escuro e fechado, que mantém refém os pensamentos que perguntam por respostas que não atravessam o vidro. Como ondas alimentando a si mesmas, a discórdia e o desespero chacoalham as águas escuras. Entre luzes e penumbra, entre flashes e breu, desorienta-se fácil e perde-se a noção, de que precisamos abraçar aquilo que outrem declarou aberração.

Não temos como nos descolar de nossas Sombras, exceto quando apagamos a vela e mergulhamos no vácuo escuro e pesado. Ela somos nós, e nós somos Ela, apenas diferentes perspectivas que foram arbitrariamente acolhidas por diferentes mundos. Devemos estender a mão, precisamos tocar na ferida, encontrar o eixo e as mentiras.

RESSIGNIFICADO


mudanças, metas
esponjas, indiretas

a pupa guarda a semente
de algo que transmuta-se
usando a si mesmo como carne.

nem tudo o que é velho
está envelhecido.
às vezes, é apenas o cansaço
de uma vida constante de objetivos
e insignificâncias.

mudemos, reciclemos,
transformemos, criemos.
pois esta é a Obra.


“Casulo” fala sobre renovação. A troca de pele para o crescimento, o fogo do incêndio para as cinzas do renascimento. Nada se cria, tudo se transforma, e portanto, matéria-prima é o que nos sobra, nós sendo o molde e a modelagem, o modelador e suas mãos. Em um mundo repleto de despejo e desvalorização, ressuscitar o que há no chão é a chave para a preservação.

A mudança depende dos olhos, depende do alimento, depende dos recursos e condicionamentos. Há receio, há expectativa, há busca pelo ouro e por si, no desafio de despir-se, de encarar-se nu e vazio. Nada é de graça, pois tudo tem uma base, uma raiz, uma ideia pra tentar ser feliz.

SILK


Seda, fios preciosos
Em tramas, narrativas
Complexas, descritivas
À espera do reflexo ocioso.

Potências escondidas
Angústias prévias e indefinidas
Ideias fervem no caldeirão
Gritando por realização.


“Casulo” fala sobre potencial. A semente dentro da casca, à espera dos bons ventos que trarão o sinal para sair à luz, a borboleta transmutando-se de seu corpo anterior, aguardando o desenrolar de suas asas. Aquele momento prévio de ser qualquer coisa, de ser tudo, de ser nada, de ser brilho, de ser opaca.

Possibilidades pulsam, caminhos se bifurcam, realidades colapsam e borbulham. Os fios da seda vão sendo produzidos, o tecido recebe suas tramas, e a história dessa pequena luz enclausurada vai sendo costurada, esperando ser vestida em sua plenitude.

Assim é o fluxo da arte. Ideias pipocam na mente a cada palavra, imagens pulam à frente traduzindo sentimentos que vieram dar um alô. Assim eu descubro a cor e a dor do obstáculo, a natureza do vidro espesso que me separa de mim mesma. Assim eu encontro fios soltos e caminhos para outras partes, compreendendo o meu ser e entendendo sua condição.

Assim eu pratico dharma fusion.